quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O silêncio que louva...

“O silêncio que louva...”


O louvor de Deus é caracterizado pela graça que age no ser humano e esta graça se manifesta em obras de justiça, a vida louva a Deus. Mas como o silêncio pode ser louvor?
O Mistério de Deus, do Deus Trindade é caracterizado pela relação, relação que é comunhão, que realiza comunhão. A criação surge da palavra, da expressão de Deus, “E Deus disse....” (Gn 1 passim). Em si, a relação suprema é o silêncio, quando se esgotam toda a palavra e a entrega é expressa totalmente. Esse silêncio como cume do amor e da entrega é essencialmente louvor de Deus, é um silêncio cheio, porque nasce de uma relação amorosa.
Diferente de outros silêncio, que são impositivos, dominadores, silêncio da morte que é traduzido no salmo como ausência de relação (cf. Sl 94, 17). Silêncio de Adão que após o pecado se esconde de Deus, silêncio (Cf. Gn 3, 8); também de Caim que após a morte do irmão quer silenciar a voz de Deus dizendo não ser responsável por seu amor (Gn 4, 9). Esse silêncio é caracterizado pelo vazio, pois só o bem pode preencher o ser humano, quando o mal surge no coração humano, surge o silêncio da segunda morte, o silêncio da condenação que faz com que o ser humano vá tomando cada vez decisões de morte e o faz isolar-se de outros seres humano e por conseqüência de Deus. Um exemplo de silêncio vazio é o calar do homem que ao ser perguntado por não estar com a veste nupcial, ele se cala, fica em silêncio, pois recusou a graça de Deus (Mt 22, 12). Silêncio do orgulho humano que discute o ser maior (Mc 9, 34).
Diferente o silêncio que louva, porque brota da união com Deus, brota da resposta humana a Palavra de Deus, faz silencio para ouvir a Deus: “Escuta,  Israel...” (Dt 6, 4). Silêncio obediente de Jesus, que ao ser questionado na sua paixão, ele não responde, chega a hora de obedecer a Deus e não há o que justificar (Mt 26, 63). Silêncio humano diante da compaixão de Deus diante da miséria humana (Mc 3, 4).
O silêncio é o centro da Trindade e é o centro do coração humano de onde brota a decisão para o bem e para o mal (Mc 6, 15), é desse silêncio que brota o verdadeiro encontro do ser humano com Deus, é desse silêncio que brota o louvor de Deus.
O silêncio não é louvor:
- quando é apenas externo e imposto de fora;
- fruto do orgulho humano que não quer expor-se;
- vazio ou esvaziante, silêncio artificial e que não está cheio da Palavra de Deus fruto do Ouvir, da contemplação de Deus;
- silêncio fruto da vergonha, do desprezo, da omissão diante do bem que se deve fazer como do levita e do sacerdote diante do sofrimento do necessitado (cf. Lc 10, 31-32);
- silêncio pelo silêncio.
O silêncio que é como mãe que produz o louvor de Deus caracteriza-se:
- silêncio cheio do ouvir a Palavra de Deus ruminada no coração que ama a Deus, silêncio fruto da contemplação de Deus na Liturgia e na Criação;
- silêncio que provoca relação humana e divina, silêncio que é amor, fruto de dois amantes que se olham nos olhos, e que não é que não há palavras expressantes do amor, mas que o silêncio se torna a expressão máxima do amor, música, palavras, afeto, o cume é o silêncio do amor;
- silêncio que é fruto de uma pedagogia de Deus como para Elias que o faz sair do confronto com Jezabel, o leva para o deserto na experiência da morte, o alimenta, e no cume do Horeb, após os vários símbolos da demonstração do Deus que é vivo e atua na História, a comunicação plena é no silêncio da brisa, Deus não se mostra diretamente na brisa, mas da pedagogia dos vários símbolos, sinais, afetos, música, etc conduz o ser humano ao silêncio relacional do boca a boca ou dos olhos nos olhos, silêncio cheio do relacionamento com o Divino (1 Rs 19);
- silêncio que faz com que a pessoa ao se encontrar com Deus, que é amor, decida por atos de justiça, é desse silêncio que faz decidir que brota o louvor de Deus.
- silêncio da obediência em meio a dor, mesmo aí unido a paixão de Jesus, louva o Pai no Espírito, para o mundo totalmente inútil, mas é o silêncio supremo da união com Deus.
Maria é o exemplo da união com Deus no silêncio, ao anúncio do Anjo, ouve a Deus, o escuta, mas não é passiva, mas questiona e dialoga com o mensageiro de Deus (Lc 1,35). É desse silêncio que brota o sim, não um sim qualquer, mas o sim da Encarnação, um sim que se coloca em relação com Deus pois se coloca como serva do Senhor (Lc 1, 38). É desse silêncio ao ouvir Isabel pode proclamar as maravilhas de Deus (Lc 1, 46 ss). É no coração silêncio que guardava as coisas de Deus, dentro da dimensão do “dabar” a palavra e os fatos que Deus faz na História, um meditar que faz Maria unir-se verdadeiramente a Deus, expressado pelo verbo grego “symbalizein” (Lc 2, 29). O cume do silêncio é a cruz, é unir-se a Jesus na cruz, no silêncio, e nesse silêncio assumir a maternidade amorosa, silêncio não é meditação de sofrimento estéril, mas sofrimento frutificante, porque desse silêncio de acolhida da palavra do Crucificado assume uma nova relação com um outro filho, não há reposta de Maria aos pés da Cruz, porque sua presença silêncio já é o sim da acolhida no amor do filho, do discípulo amado, o silêncio diante da cruz é amor que faz acolher no amor o próximo (Jo 19, 25-27)
Que Deus nos dê um silêncio que seja louvor, que leva a amar, e não um silêncio estéril, frio, gelado, estéril orgulhoso, envergonhado. Que dentre todos os símbolos e sons do mundo, que também são criados por Deus, escutemos a harmonia do amor de Deus, e ao fazer essa experiência possamos ter encontro amoroso com Deus e com os irmãos, aí sim, entenderemos o silêncio cheio da Palavra de Deus, do amor, dos amantes, silêncio contemplativo, que surge naturalmente, fruto da pedagogia de Deus dentre os vários símbolos e barulhos, que surge do coração humano e é frutuoso.

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