quarta-feira, 4 de julho de 2012

ADORAÇÃO E O CARISMA DO “LOUVOR DE DEUS”



ADORAÇÃO E O CARISMA DO “LOUVOR DE DEUS”

“Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:
Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4,13)[1]


            A palavra adoração, tanto no hebraico com hawa ou Shachah, ou no grego como na passagem acima, proskuneo, tem a conotação de prostração, com o significa de submissão. Significado advindo do gesto de alguém que se submete ao rei, se prostrando diante dele, o reconhecendo como soberano. Agora, será que Deus quer esse tipo de submissão? Cremos que não. Não é a submissão de escravos que Deus deseja, mas de filhos que o reconhecem como a fonte salvadora,
“Vede, agora, que Eu Sou, Eu somente,
e mais nenhum deus além de mim;
eu mato e eu faço viver;
eu firo e eu saro;
e não há quem possa livrar alguém da minha mão” (Dt 32,39)
            Deus é a fonte da vida, e o gesto de adoração, de prostrar-se é reconhecer por um lado a nossa pequenez perante o Criador e a nossa dependência, por outro lado é prestar culto, adoração, latria, o servir ao Soberano, àquele que é o Senhor, mas que é o Deus compassivo e clemente, como diz Moisés:

“E, passando o Senhor por diante dele, clamou: Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” Ex 34.6.

            A proibição de adorar imagens advém exatamente disso, de não se prostrar e reconhecer numa imagem ou ser humano a fonte da vida, se se prostra perante algo, como a Arca da Aliança, por exemplo, é reconhecer nela o instrumento no qual Deus atua e portanto o instrumento de se chegar a Fonte da Vida (cf. 2 Sm 6).
            Diante de tudo isso o que seria o pecado da idolatria? Idolatria, num conceito bem amplo, é ter qualquer coisa ou pessoa no lugar de Deus como Fonte da Vida. A prostração não precisa ser física, basta fazer qualquer coisa reconhecendo o outro ou o instrumento ou a sociedade ou seja lá o que for como Fonte de Vida, que pode sustentar a minha vida.
            A condenação à adoração de outros deuses vai nessa perspectiva, porque eles não são nada, não podem dar a vida, como no dizer do profeta Jeremias: “Este povo maligno, que se recusa a ouvir as minhas palavras, que caminha segundo a dureza do seu coração e anda após outros deuses para os servir e adorar, será tal como este cinto, que para nada presta” (Jr 13, 10).
            O carisma do “Louvor de Deus”, quer mostrar que tudo o que somos e fazemos louva e bendiz a Deus, e porque não dizer que tudo o que somos e fazemos adora ao Senhor Nosso Deus. Por isso, é inaceitável na vivência do carisma o se prostrar perante qualquer coisa que seja nada, novamente dizemos, não nos prendamos ao ato em si, porque como Davi podemos reconhecer na Arca da Aliança o instrumento para chegar até Deus, como no nosso caso de católicos que somos reconhecemos a Nova Arca da Aliança em Maria Santíssima um instrumento perfeito para se chegar até Deus, nessa dimensão se entende a Teologia da Consagração a Nossa Senhora proposta por São Luís Maria Grignon de Monfort.
            Queremos, na perspectiva do carisma, estar atentos a outras idolatrias muito mais perniciosas que vão penentrando em nosso ser sem nos apercebermos disso. Nos prostramos diante do dinheiro, do sexo, de um time, da beleza, da vaidade, do corpo, do reconhecimento, do aplauso, e em muitas outras coisas, pessoas, situações, tendo-as como fonte de nossa vida. E como o fazemos? Não é muito difícil de discernir. Na medida em que atribuimos valor de vida e morte ao que podemos chamar de ídolos, estamos sendo idólatras. Quando se chega ao ponto de matar alguém, ou querer sua morte, ódio e apego ao poder, na medida em que passamos sobre a vida, sustento e a vocação de pessoas para conseguir agradar ao ídolo, que normalmente reflete a nós mesmos, somos idólatras, vivemos a hipocrisia e não o “Louvor de Deus”. Quando nosso egoísmo dita as nossas decisões de tal forma que não pensamos e não nos colocamos no lugar dos outros, o ídolo que somos nós é que adoramos. Na medida em que colocamos como ponto de partida em nossa vida e como ponto de chegada o ídolo, pautamos nossa vida, experiências e o principal começamos tomar decisões, das quais brotam nossas ações, para agradar o ídolo, somos idólatras.
            O carisma é a base da Fraternidade Jesus Salvador, assumimos a alcunha de salvistas. Servos de Jesus Salvador, o nome de "servo" brota exatamente da dimensão de adoração, servir a Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Agora aqueles que querem anunciar pela vida e pelas próprias decisões que só Um pode salvar, isto é Deus, chamados salvistas vão ter outras fontes de vida, vão valorizar a vaidade?  Vão lutar por realidades vazias? Valorizarão de tal forma a riqueza, o poder ou pessoas de tal forma que se tornem salvadores? Não.
             Por isso, para viver esse carisma, devemos rezar para que todo e qualquer ídolo seja quebrado em nossa vida, mas não devemos esperar que Deus quebre nossos ídolos, são nossas mãos que devem quebrá-lo, e se for o caso de bebermos a água como o pó dos ídolos que tínhamos (cf. Ex 32, 20), experimentando o gosto amargo de nossa idolatria e isso servir para reconhecermos que um só é a Fonte da Vida, que assim seja. Antes assim, do que no fim da  nossa vida, de uma vida vazia porque pautada em decisões que brotaram da vaidade idolátrica, do vazio da idolatria, encaminharmo-nos para o Inferno.
         Nessa perspectiva rezemos para que o “Louvor de Deus” cresça em nós sem cessar e que nenhum espaço haja em nosso coração, no lugar mais íntimo da nossa tomada de decisão, para a idolatria, e com nosso coração cirscuncidado somente a Deus adoremos e só a Ele prestemos culto.


[1]Sociedade Bíblica do Brasil. (2003; 2005). Almeida Revista e Atualizada - Com Números de Strong (Mt 4:10). Sociedade Bíblica do Brasil.