quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Louvor e Murmuração

Louvor e Murmuração

Como vimos em outra postagem neste blog, o inverso de Louvor de Deus é a hipocrisia, pois tomamos uma máscara de fazer o bem, mas na verdade fazemos algo para chamar a atenção das pessoas, e como diz Jesus já recebemos a nossa recompensa (cf. Mt 6). O Louvor de Deus são ações e palavras que brotam da graça de Deus derramada em nossos corações pelo Espírito Santo derramado sobre nós (cf. Rm 5, 5).
Mas além do “Louvor de Deus”, o “Laus Dei”, existe o “Louvor a Deus”, o “Laus Deum”, nesse caso, como também em outra postagem, é o verbo hebraico halal, ou o grego aino, que trazem a ideia de elogio, engrandecimento daquele que louvamos, que no caso Deus.
Nesse ponto, entra o seu oposto que é a murmuração. Murmurar vem de fazer barulho em voz baixa, resmungar, que advém de uma concepção onomatopaica do barulho da água que percorre um riacho.
Na Sagrada Escritura esse murmurar aparece em: “E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber?”[1] O povo sai do Egito, após contemplar as maravilhas de Deus, na primeira prova começa a murmurar. Também em outras passagens como o reclamar era contra Moisés e Arão (Ex 16, 2; Nm 14, 2), ou apenas Moisés (Ex 15, 24; 17, 3; Nm 14, 36) ou apenas Arão (Nm 16, 11) ou o próprio Deus(Ex 16, 7-8, Nm 14, 27,29). Telunná do verbo lûn, está associado a rebelar-se, mas sempre em última análise a murmuração dos israelitas era sempre contra Deus, que havia comissionado os líderes do povo. A natureza dessa murmuração se vê no fato de que é um ato ostensivo de rebelião contra o Deus (Nm 14, 9) e uma recusa em acreditar em sua palavra e suas obras (Nm 14, 11, 22, 23).[2]
A Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, a versão dos LXX, traduz na maioria das vezes por diagogguzw, ou como em Ex 17, 3 por gogguzw, que é murmurar, resmungar, reclamar contra alguém etc. No Novo Testamento, o pensamento é de reclamar e como o Antigo Testamento, tem por objetivo o próprio Deus continua, como na parábola dos trabalhadores da vinha que murmuravam por terem recebido o mesmo valor dos que vieram por último (cf. Mt 20, 11), a murmuração contra Jesus por ele comer com os pecadores (cf. Lc 5, 30) Lucas toma diagogguzw (cf. Lc 15, 2), como também no caso da convivência com o pecador Zaqueu (Lc 19, 7) ou o povo que murmura por medo dos hipócritas se não era Jesus o Cristo (cf. Jo 7, 32), ou a murmuração que desacreditava do Pão da Vida (Jo 6, 41.43 4 61).  São Paulo faz memória dos fatos do Êxodo recordando que a murmuração contra Deus traz o castigo do exterminador (cf. I Cor 10, 10, cf Ex 12, 23; Nm 17, 6-15), mas logo depois recorda que não há tentação acima das forças (cf. I Cor 10, 13).
Vemos que a murmuração, segue as características do Antigo Testamento, sendo ela dirigida a Deus, mas no Novo Testamento, Jesus é aquele ao qual é dirigida a murmuração, (exceto I Cor 10, 10), repare que a murmuração é porque Jesus convive com pecadores, Deus vem fazer comunhão com o pecador em Jesus Cristo e a murmuração mais condenada é exatamente esta, e se fizermos uma relação com a hipocrisia, é o hipócrita que murmura, que não se conforma em não ser separado, reconhecido como distinto, é deste que brota a murmuração, por não reconhecer a misericórdia de Deus se fez carne em Jesus Cristo e acolhe o pecador, ou se faz o Pão da Vida, o pão daquele que necessita de Deus.
Como discernir a murmuração contra Deus e não confundi-la com o que o próprio Jesus fez quando recrimina o erro, conforme abaixo:
Mt 23, 1-4 – Repare Jesus condena as autoridades da época, sentar na cadeira de Moisés não é algo qualquer, é a autoridade, e diz simplesmente para nós quando a autoridade é contraditória fazer o que manda, mas não segui-la em seus atos, mas isso com certeza não é murmuração, é mostrar a verdade. Lembremos que são desses hipócritas que vem a murmuração.
1 Então, falou Jesus às multidões e aos seus discípulos: 2 Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus. 3 Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. 4 Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.[3]

Lc 13, 32 – Jesus critica Herodes tranqüilamente, dando a ele o cognome de raposa, atribui a astúcia e a maneira rapina de agir do animal a uma autoridade de seu tempo:
Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei”.

A atribuição de raça de víboras, um atributo nada amistoso é utilizado tanto por Jesus como por João Batista:

João Batista
Mat 3:7
Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?

Luc 3:7
Dizia ele, pois, às multidões que saíam para serem batizadas: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?

Jesus
Mat 12:34


Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração.

Mat 23:33
Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?


São Paulo também utiliza até da ironia para atacar seus inimigos, e isto não é considerado murmuração, e também repreende São Pedro, quando a verdade do Evangelho está em jogo:

Gl 2, 11-15
11 Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível. 12 Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão. 13 E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles. 14 Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus? [4]

I Cor 4, 7-8
7 Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido? 8 Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco.[5]

            Jesus colocou pessoas a frente do Rebanho, nós temos que obedecer as autoridades e ouvir na sua boca a Palavra do Senhor, como disse Jesus: “Quem vos ouve, a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, despreza aquele que me enviou” (Lc 10, 16). Mas, não se pode absolutizar o enviado do Senhor, deve-se sempre se esforçar para ouvir a voz de Deus, mas nenhum ser humano é Deus. Santos, como santa Catarina de Sena ou São Bernardo, ousaram admoestar o próprio papa, porque somos todos limitados.
            Atualmente, o próprio papa Bento XVI, na CARTA PASTORAL DO SANTO PADRE BENTO XVI à Irlanda, tendo em vista o grande números de casos de pedofilia naquele país e a resposta insuficiente da Igreja, constatou que uma das razões foi “uma tendência na sociedade a favor do clero e outros figuras de autoridade, e uma preocupação deslocada para a reputação da Igreja e a necessidade de evitar escândalo, resultando em falha a aplicar as sanções canônicas e para salvaguardar a dignidade de cada pessoa”.  E ao falar aos sacerdotes pedófilos que tinham a autoridade de presbíteros e bispos não mediu as palavras dizendo: “Você traiu a confiança que foi colocado em você por jovens inocentes e seus pais, e você deve responder antes de Deus Todo-Poderoso e antes devidamente constituídos tribunais”.
Poderíamos listar muitos outros exemplos, porém o critério supremo para distinguir o que é murmurar é a verdade, pois não se murmura quando se trabalha pela verdade e em favor da verdade, murmurar é trabalhar contra a verdade (cf. II Cor 13, 8).
Recentemente como é do conhecimento de todos pela grande imprensa, o escândalo referente ao fundador dos Legionários de Cristo, uma das coisas que foi condenada pela Igreja foi o quarto voto que prescrevia não criticar os superiores, esse voto criou um ambiente propício para que as vitimas de pedofilia fizessem silêncio e não denunciassem o fundador pedófilo. Por isso, nunca se pode confundir lutar pela verdade com murmuração. A transparência é essencial ao carisma salvista como exortava nosso Pai Fundador padre Gilberto, inclusive para os superiores.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).
           



[1]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. Êx 15:24
[2] HARRIS, R Laird et alii. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2008, n. 1097.
[3]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. Mt 23:4
[4]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. Gl 2:15
[5]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. 1Co 4:8

Um comentário:

  1. murmurar é trabalhar contra a verdade!Como uma visão reducionista das coisas pode nos cegar do que verdadeiramente precisamos trabalhar! Detonou nestetexto! PArabensss!!!!!!!!!!FOrte@!!!!!

    ResponderExcluir