sábado, 24 de março de 2012

O Espírito: o Mestre interior protagonista do Louvor de Deus


“O Espírito: o Mestre interior protagonista do Louvor de Deus”

            São Paulo, no início da Primeira Carta aos Coríntios, vai dizer que “anunciamos Cristo crucificado que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura” (1 Cor 1, 24). Para uma comunidade orgulhosa de seus carismas, que valorizava o espetáculo da ação atribuída ao Espírito Santo, São Paulo apresenta o Cristo, o Ungido, o Portador do Espírito, como crucificado. Esse crucificado se torna escândalo para os judeus, uma vez que é maldito aquele que é dependurado no madeiro (cf. Gl 3,13, citando Dt 21, 23), no pensamento dos judeus, o Ungido não poderia ser um maldito, o canal para chegar até Deus não poderia ser um morto dependurado num madeiro, se tornando assim um escândalo para os judeus. Por outro lado, o Cristo crucificado é loucura para os gentios, para uma cultura que valorizava o belo, o harmônico e o perfeito, um homem fraco, sujo e machucado, condenado num madeiro não poderia ser sinal de salvação, mas de loucura, ou numa outra visão, uma total insensatez, uma vez que este Ungido não poderia ser instrumento de Deus para a salvação, o feio ou o imperfeito é loucura visto como instrumento de Deus.
            Diante disso, às vezes nos colocamos na visão do judeu da carta aos Coríntios e temos a cruz como um escândalo ou no lugar dos gentios não aceitamos o feio e o desarmônico como instrumento da graça de Deus. São Paulo coloca que é o Messias, o Cristo, crucificado é que anunciamos. Portanto, é esse Ungido que anunciamos, aquele que pelo sofrimento doou o Espírito a cada um de nós.
            O objetivo de toda a espiritualidade verdadeiramente cristã é Cristo vivendo em nós (cf. Gl 2, 20), e isso é obra do mesmo Espírito que o levou pelo caminho do sofrimento. Nessa perspectiva, o Espírito é que nos Cristifica, agora não podemos esperar que o mesmo Espírito que levou Nosso Senhor Jesus Cristo à cruz e à ressurreição, que o levou pelo caminho da fraqueza até a ressurreição, não podemos pensar em ir por outra via.
            Por isso, devemos estar abertos ao Espírito que nos leva para o deserto para os embates interiores e exteriores (cf. Mt 4, 1-11) para nos preparar para uma verdadeira via de Cristificação, quanto mais somos crucificados com Cristo (cf. Gl 2, 20), mais o Espírito age em nós ou melhor sabemos que mais o Espírito age em nós, quanto mais somos crucificados com Cristo. Nesse processo é preciso ter a consciência que é na fraqueza que somos fortes (2 Cor 12, 10), não que idolatrássemos a fraqueza e numa autocomiseração sem fim ficássemos lambendo nossas feridas e nos refestelando com elas num masoquismo doentio, isso seria orgulho puro, porém é na fraqueza nos abrimos ao Espírito, e experimentamos aquele que é chamado na sequência de Pentecostes como o “Pai dos Pobres”, por essa via, cada ato que fizermos teremos a certeza plena que vem do Espírito Santo e não de nosso orgulho de criatura.
            Portanto, não existe Louvor de Deus, atos e palavras que louvam verdadeiramente a Deus, fora do Espírito Santo. Ele é o protagonista dessa “opus laudante”.
            Porém, o Cristo crucificado é loucura para os gentios que buscam avidamente por sinais. Será que não está na hora de vermos o Espírito Santo agir nas curas? Com certeza. Mas será que não está também na hora de vermos o Espírito Santo agindo nos sinais do Cristo, do Ungido, do Portador do Espírito, crucificado? Agora é o Kairós, o momento oportuno. Diante desse mundo, que quer maravilhas a todo instante, que tem sede de beleza física, de pessoas fortes, as ditas “saradas”, cremos que está na hora de vermos a ação do Espírito nas fraquezas, nas fragilidades humanas, a medida que tais fragilidades são assumidas pela criatura humana e abertas à graça de Deus, como canais privilegiados da ação do Espírito Santo, isso sim, na etimologia do “sarado”, salvas, tais pessoas movidas pelo Espírito podem ter verdadeiramente compaixão pelo próximo. O Espírito Santo é o protagonista do Louvor de Deus, o Mestre Interior que guia a criatura humana para sua Cristificação, mas tem que passar pela Cruz, e passar pela Cruz não é sofrer mais do que já sofremos, mas cristificar nossas feridas e fraquezas, inclusive nossa afetividade machucada e ferida. Que a beleza suprema seja que nossas feridas um dia, unidas ao Ungido Crucificado, pelo Espírito Santo, sejam gloriosas como as Dele hoje é. Que assim o Louvor de Deus cresça em nós sem cessar. 

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