domingo, 13 de fevereiro de 2011

“Louvor de Deus: Santificação pessoal e comunitária”


“Louvor de Deus: Santificação pessoal e comunitária” (Const. n. 5)

            Padre Gilberto quando escreveu seus primeiros escritos, que a vivência do Louvor de Deus, primeiramente na Liturgia, deveria ter por conseqüência obrigatória a santidade pessoal e comunitária. Repare-se, que é santificação a partir da pessoa, que já traz a dimensão de relação, portanto comunitária. Não existe, na dimensão cristã, santidade individual.
            A Igreja é comunhão, e por ser comunhão a comunidade concreta deve viver essa comunhão, pois a essência cristã é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo (cf. Lc 10, 25-28), é um mesmo amor, do amor que brota da fonte que é Deus tem por objetivo o próximo, e no amor ao próximo aprendemos a amar a Deus a quem não vemos (cf. 1 Jo 4, 20).
            Portanto, seja na vida religiosa ou fora dela, o amor é o maior louvor de Deus como já transcorremos em outra publicação. Como diz o documento “Vida Fraterna em Comunidade” da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, citando o papa João Paulo II: «Toda a fecundidade da vida religiosa depende da qualidade da vida fraterna em comum. Mais ainda, a renovação atual na Igreja e na vida religiosa é caracterizada por uma procura de comunhão e de comunidade». Portanto, sem vida fraterna de qualidade não existe vida religiosa, em nossas comunidades paroquiais o mesmo raciocínio, se não há preparação e educação das pessoas para o amor verdadeiramente cristão em comunidade não existirá paróquia, e não existindo amor vivido e aprendido em comunidade na graça de Deus, não existirá nunca Louvor de Deus.
Um conceito de amor: O amor como Entrega consiste em primeiro lugar em ver, em estar atento à realidade do outro. Depois se mover de compaixão, todo o nosso ser estar voltado para auxiliar o outro em sua real necessidade, doar a nossa vida, tempo e qualidades para satisfazer as verdadeiras necessidades do próximo, para que o necessitado tenha vida e possa tornar-se assim um ser humano livre. É preciso estar sempre à disposição, estar presente a cada instante na vida do necessitado. Mas nesse processo estar conscientes do sofrimento que isso gera e assumir tal sofrimento na Cruz do Senhor Jesus Cristo. A Entrega gera vínculos que perduram pela eternidade, uma aliança eterna em Cristo que satisfaz o coração humano. Esse amor-entrega, que procura fazer o bem (cf. At 10, 38), é graça de Deus e é o fundamento da motivação humana, isto é, do mover do coração humano (cf. Lc 10, 33).
Também, num contexto de vida em comunidade surge a figura do dominador: a dominação surge no coração do ser humano que, não aprendendo amar e ser amado, não aceita a sua condição de necessitado e encastela-se. O dominador procura subordinar o outro, absorvê-lo, numa busca de uma falsa união através da hipocrisia. Essa dominação, que pode se transvestir de amor, caracteriza-se principalmente em instrumentalizar o outro na falsa tentativa de satisfazer as próprias necessidades. Tudo isso gera nas relações humanas desconfiança e por fim separação.
Diante da necessidade da vida em comunidade, porque nela se aprende a amar, e a verdadeiramente saber se somos santos, como diz Santa Teresa de Jesus: “A pessoa que sempre está em isolamento, por mais santa que possa considerar-se, não sabe se é paciente ou humilde, nem tem meios de sabê-lo? Como saber se um homem é valente se nunca o virmos em batalha? (...) E considero maior graça de Deus um dia de humilde autoconhecimento, mesmo à custa de muitos sofrimentos e aflições, que muitos dias de oração (...) E acreditai-me: o que beneficia a alma não é um longo tempo de oração, já que, quando empregamos bem o tempo em obras, isso muito nos ajuda a, em breve, conseguir uma disposição para acender o amor muito superior à alcançada em muitas horas de consideração. Tudo vem das mãos de Deus. Bendito seja Ele para sempre” (Fundações, 6, 15-17).
É na vida em comunidade que deixamos de ser dominadores e instrumentalizadores das pessoas e passamos a um amor de entrega como o amor de Jesus, “Amai-vos uns aos outros como eu Vos amei” (Jo 13, 31), amor de cruz.
Por isso, é muito interessante ver alguns tipos, tipos ideais de vivência em comunidade para ilustrar a dominação e podermos chegar ao amor perfeito, como está no salmo 18 a natureza fala da voz de Deus:

- o Chupim – o animal que se aproveita do ninho do tico-tico para botar seus ovos e este último criar seus filhos, é muito interessante ver um pássaro preto, o dobro do tamanho daquele que o cria, suplicando comida. Em vida em comunidade surge a figura do esperto, daquele que se esgueirando procura todas as oportunidades possíveis para colocar as pessoas a seu serviço. O importante, como numa propaganda antiga, é levar vantagem em tudo, é não fazer nada e colocar os outros a trabalhar para si.

- o Morcego – o animal famoso, tantas vezes retratado como vampiro, ao atacar outros animais anestesia com sua saliva para o seu dominado não perceber que está sendo sugado. É a figura utilizada para figurar o psicopata ou sociopata social, é a figura nefasta em vida em comunidade, frio e calculista, procura manipular tudo a seu favor, procura não como o Chupim, obter vantagens, instrumentaliza os outros, inclusive em sua afetividade para seu bel prazer. O Anestésico pode ser desde dinheiro até favores pessoais, iludindo seu dominado como se fosse amor, mas é pura utilização, e quando satisfeito na sua fome de sangue, joga fora o outro como um copo plástico descartável.

- o Predador – seja um leopardo ou um tigre, a técnica de afastar sua vítima do rebanho para dominá-la e devorá-la está presente nesse tipo, ele quer utilizar-se do outro, mas para não ficar evidente isso diante dos outros, afasta o seu dominado da vida em comum e suga sua vida, é aquela pessoa que a frente de uma comunidade não cria comunidade, mas prende as pessoas a si mesma. E para que isso não fique evidente, utiliza-se da técnica do Império Romano, divide para governar.

- o Cachorrinho de estimação – o cachorrinho que é dócil, balança o rabo para todos que adentram ao lar, que aceita qualquer tipo de atitude, e se joga ao chão para se defender, é a figura daquela pessoa que em vida de comunidade diz sim para tudo, tudo aceita, tudo é fonte de santidade, não tem personalidade nenhuma, não existe limites, tudo é permitido. É o dominado perfeito, essa pessoa é tão perigosa quanto o morcego, pois ao assumir um cargo se torna um predador perfeito.

- o Tubarão – o totalitarista, aquele que domina os oceanos e não tem outro perigo a enfrentar, é o sonho de um Hitler, o poder total, a submissão total de todos, ele não é um rei, é nem somente um dominador, é aquele que despersonalisa as pessoas, quer fantoches e obediência cega, surda e muda.

- o Quero-quero – ave que vive em conjunto, e que ao menor problema grita, grita sem parar, tipo ideal daqueles que vivem em comunidade, mas tudo é problema, o eterno adolescente que a única coisa que sabe é reclamar e querer, pedir e solicitar, sua vida é marcada pelo pedir, seu sonho de consumo é tudo, a vida vazia se resume nisto. O reinvidicador, mas que não olha a justiça, é o desequilíbrio do cachorrinho, para esta ave nada, abslutamente nada está bom, como no dizer de Jesus: “Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros:
Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes” (Mt 11, 16-17).

- o bicho preguiça – é aquele que vive o seu mundo e somente seu mundo, nada o incomoda, atrasa com a maior tranqüilidade, mas nada é problema para uma pessoa que vive o seu mundinho, o importante é dormir e o restante outras pessoas cuidarão, para esse bicho, totalmente otimista, tudo dará certo, “para que trabalhar, se tudo acabará”, nada é incomodo, só que pessoas assim se tornam peso para os outros.

- a hiena – animal que come carniça, mas seu som é muito caracterizado como uma gargalhada, o importante é sorrir, o sorriso resolve tudo, não importa o que aconteça, não importa os problema, o importante é levar tudo na brincadeira, se alguém está doente, não há problema, amanhará ela ficará boa, mas não faz nada para melhorar, pois vive de carniça e seu sorriso, muitas vezes irônico ou infantil, resolve todos os problemas, se há uma grande desavença, no outro dia se sorri como se nada tivesse acontecido, como um bom bipolar.

- a raposa – vive do roubo e da rapina, sorrateiro, ninguém percebe, como em vida em comunidade essa pessoa rouba, mata e destrói, mas na maior classe, tem uma aparência de honestidade e de santidade que é invejável, e se é preciso mentir, mente para manter sua imagem de boa pessoa, enquanto nos bastidores vai rapinando os ovos das galinhas.

- o urubu – O papa João XXIII, no seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II, atacou os chamados “profetas das trevas”, como o urubu essas pessoas vêem o mal em tudo, vivem da morte e da carniça de outras pessoas, diferente da hiena, que ri, o urubu é soturno, semeia um pessimismo sem fim, e fica feliz quando tudo dá errado.

Depois desse zoológico, qual seria o animal que poderia ser o ícone da vivência em comunidade? O próprio Jesus nos dá esse exemplo:

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mt 23, 37)

            Claro que poderíamos ver as virtudes nos animais acima, a coragem do leopardo, a simpatia de um cachorro de estimação, etc. Mas Jesus, toma a galinha, animal doméstico, que busca reunir, busca ser mãe daqueles que lhe foram confiados, dando-lhes vida. Como São Francisco de Assis, que exortava seus irmãos a serem pai e mãe uns dos outros. A galinha quer não somente um pintinho, quer que todos se reúnam, quer protegê-los. Mas não é um animal letárgico, quando vê sua cria atacava, incha-se e vai ao ataque. Por outro lado, não quer que seus filhos fiquem sempre pequenos, no processo do seu crescimento os ensina a comer e a procurar comida, pelo seu exemplo em primeiro lugar. Jesus chora sobre Jerusalém desunida ao dizer isso, seu sonho, que deve ser o nosso, é que “todos sejam um” (cf. Jo 17, 21).

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