quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“Só um coração reto louva a Deus”


“Só um coração reto louva a Deus”

            O carisma do “Louvor de Deus” são obras que brotam da graça de Deus derramada no coração humano (cf. Rm 5, 5) e que proclamam a santidade de Deus e levam outros a reconhecer que Deus é Deus, não obras hipócritas que brotam da carne (cf. Gl 5) e só servem para louvar a quem as fez.
            Para que haja uma obra que louva a Deus ela deve brotar de um coração reto. A reta intenção é algo que surge de uma consciência formada na graça e na liberdade, é algo mais precioso que um ser humano tem.
Mas o juízo se converterá em justiça, e segui-la-ão todos os de coração reto” (Sl 94, 15).
Mesmo para uma pessoa como Davi que pecou e muito, Salomão, seu filho reconhece que houve retidão em seu coração:
“Respondeu Salomão: De grande benevolência usaste para com teu servo Davi, meu pai, porque ele andou contigo em fidelidade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a tua face; mantiveste-lhe esta grande benevolência e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como hoje se vê” (1 Rs 3, 6).
“Bem-aventurados os que guardam a retidão e o que pratica a justiça em todo tempo” (Sl 106, 3).
“O Senhor julga os povos; julga-me, Senhor, segundo a minha retidão e segundo a integridade que há em mim” (Sl 7, 8).
O que é retidão? Retidão é seguir a verdade, na Sagrada Escritura foi vista de modo concreto como o Caminho do Senhor (cf. Sl 18, 21; Sl 138, 5), que é reto, por isso seguir o Senhor é seguir a retidão do seu caminho.
Tudo isso é muito belo, e é, porém somos pecadores e como encarar tudo isso? Afinal de contas pecamos, e nos desviamos do caminho do Senhor. Nesse momento, lembro-me de uma palestra do Frei Elias Vela e este dizia que há um ser pecador bom e um ser pecador mau. O mau é aquele que peca e simplesmente não toma a si a culpa e continua no seu pecado numa consciência anestesiada e simplesmente continua numa jornada de desconhecimento de si e se impõe aos outros. O pecador bom é o que deveria ser cada um de nós, reconhece a potencia pecaminosa que há em cada um de nós e reconhecendo assim permite que a graça de Deus aja, como no dizer de São Paulo: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1, 15).
Mas há um verdadeiro veneno, uma droga poderosa que anestesia as consciências e faz o ser humano pensar que é santo, gabar-se de não ter pecado e continuar a se chafurdar na lama e ainda achar que isso é normal, a hipocrisia, que faz lobos transvestir-se de ovelhas, para na ilusão pensar que está tudo bem. Droga poderosa que quer a todo custo quer anestesiar a caminhada da cruz, e a exemplo de Jesus que recusou a mirra deveríamos recusá-la (cf. Mc 15, 23).   
Há um hipócrita, como já foi dito em outras postagens, que é o rigorista, esse quer garantir a qualquer preço sua imagem de santidade, por isso não reconhece em si erro algum, e sempre a exemplo de Adão quer culpar a Eva pelos seus próprios erros: “Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3, 12). Essa figura é aquele eclesiástico que tendo parte com satanás explora sexualmente homens, mulheres ou crianças, e fingindo ser um bom pastor diz que as amava. É o pervertido que explora prostitutas a noite e as chama de “vangabundas” nas esquinas durante o dia, por que jamais teria parte com tais “pecadoras”. Tem um discurso absolutamente impecável, com palavras sempre bem pesadas e de um português castiço, para ocultar a própria corrupção. Não pode-se dizer “mentira”, mas “faltou-se com a verdade”. O politicamente correto levado às últimas consequencias para encobrir a ladroagem. A imagem é tudo, mas não pode-se viver para sustentá-la a qualquer custo. Não há retidão de alma, mas uma tentativa de mostrar que na aparência há para outros veem, mas como diz Jesus o Pai que tudo vê, vê o coração pútrido do hipócrita e este receberá sua recompensa (cf. Mt 6, 18).
            Há o hipócrita laxista, para este tudo é permitido, a seu ver ele não peca, e se o outro concede a seus desejos não há pecado, porque o outro quis. Esse hipócrita gaba-se de pecar e incentiva os outros a pecar. A sua regra é a malícia, uma habilidade sem fim para ver em tudo o que há de mal, seja nos relacionamentos, nas atitudes, na fala dos outros. A sua consciência está petrificada pelo mal, por isso ele vê em tudo sob esta ótica, e critica quem não vê dessa forma: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço”. (Lc 21, 34) Destorce-se o versículo no qual Jesus dirigindo-se aos mestres da lei diz que as prostitutas e os publicanos vos precederão no Reino de Deus (cf. Mt 21, 31), por estes reconheceram-se pecadores, e esse reconhecimento somente brotar de um coração reto e não de um coração embevecido do pecado e que não quer de modo algum largar um procedimento errôneo e se converter.
E como sair dessas situações, pois se nos preocupamos em sair do pecado pelo esforço, podemos nos tornar um rigorista, se trabalhamos a compreensão podemos ser laxistas conosco e com os outros. O segredo é um só, se há um coração que busca a retidão, a verdade, sempre há esperança, se a pessoa é traiçoeira, e aprendeu a ser assim, dissimulada, mentirosa, mas luta contra isso porque quer descobrir a verdade, há esperança. Se a pessoa tem uma sexualidade completamente desregrada, cai e levanta muitas vezes, mas se há uma busca que brota de um coração reto há esperança. Mas se há fechamento, um coração fechado que não aceita a verdade, a correção e não quer saber de autoconhecer-se, se ouvirá a frase de Jesus dita a Judas: “E, após o bocado, imediatamente, entrou nele Satanás. Então, disse Jesus: O que pretendes fazer, faze-o depressa” (Jo 13, 27). Jesus viu que a liberdade chegou ao fim, Judas se fecha totalmente no seu desejo de entregar o mestre, perdeu-se na própria liberdade, por isso deixa-o livre, por isso diz que faça o que tem que ser feito, não há mais exortação, não há mais palavras ou conselhos a serem ditos, Judas já tomou sua decisão e é entregue a sua própria decisão. Da mesma forma cada um de nós é livre para tomar suas decisões e podemos nos perder nelas, principalmente fechando-se a tudo o que o Senhor coloca em nossa vida e tomamos decisão baseada nos desejos de nossa própria carne.
Por isso, é só rezando. E o que?
“Senhor, eu sou um pecador, mas tenho medo de cair nos enlaces de minhas decisões, de meus dramas mentais nos quais eu me faço de vítima e quero culpar a todos e a Vós pelas minhas fraquezas e pecados e decisões que brotam delas. Renuncio a toda autojustificação que quer a todo custo manter a própria imagem. Renuncio a culpar quem quer que seja pelas minhas decisões pecaminosas. Renuncio a manipular ou instrumentalizar pessoas, mesmo que eu tenha sofrer muito com minha própria solidão. Renuncio a toda malícia, toda habilidade para praticar o mal, para encobrir o mal feito, a todo orgulho em pecar e fazer os outros pecarem. Renuncio a toda autocomiseração culposa, a toda reivindicação e murmuração que só chamam atenção sobre feridas criadas e aparentes para encobrir o mal em mim. Por isso, Senhor, como uma ovelha machucada apresento a vós minhas feridas, cura-as e quero sair da vida de pecado na qual vivo. Apresento minhas decisões e peço que pelo teu Santo Espírito mostre a verdadeira intenção que está por trás de cada decisão que tomo, das quais brotam olhares, palavras e atos. Que haja um reta intenção nas decisões que tomo, para que no dia do Santo Juízo Final não haja em mim qualquer tipo de medo de me apresentar diante de vós e de meus irmãos. Amém”.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Louvor em Santa Teresa de Jesus


“O Louvor em Santa Teresa de Jesus”

“Sendo sempre meu desejo servir de instrumento do louvor do Senhor e para o aumento do número dos que O serviam”. F 28, 15

“E, por quem sois, Senhor, servi-vos de mim, pois bem sabeis que não pretendo outra coisa que sejais louvado e engrandecido um pouco por haverdes plantado um jardim de flores tão suaves num pântano tão sujo e malcheiroso. Queira Sua Majestade que eu, pela minha culpe, não volte a arrancá-las nem torne a ser o que era”. V 10, 9

Aludindo ao Sl 88, 2 “Cantarei para sempre a misericórdia do Senhor”
“Suplico-Vos, Deus meu, que assim seja e que eu as cante sem parar, já que Vos dignastes conceder-me graças tão imensas que espantam os que as veem e que muitas vezes me deixem fora de mim para que eu melhor Vos louve”. V 15, 11.

Terceiro Grau da Oração
“As faculdades só tem condições de ocupar-se em Deus; parece que nenhuma ousa mexer-se, (...) Vem então, desordenadamente, muitas palavras de louvor a Deus, que só o próprio Senhor as pode corrigir. (...) A alma fica desejosa de louvá-Lo em voz alta, pois não cabe em si, estando num saboroso desassossego. (...) A alma gostaria que todos a vissem e compreendessem a sua glória para dar graças a Deus”. V16, 3.

Quarto Grau da Oração
“Surgem as promessas e determinações heróicas, (...) aborrecimento do mundo (...) tendo crescido em humildade (...) A vaidade está tão longe dela (...) Estando sozinha com Ele, que há de fazer senão amá-Lo? (...) ela (a alma) percebe que merece o inferno e que é castigada com a glória; desfaz-se em louvores a Deus, e quisera eu me desfazer agora”. V 17, 5

Arroubo
“É verdade que, em geral, essas faculdades estão mergulhas em louvores a Deus ou na busca da compreensão e do entendimento do que lhes ocorreu”. V 20, 20

Efeitos da Graça
“Assim, eu não queria que houvesse limites no meu serviço a Sua Majestade, desejando empenhar nisso toda a minha vida, todas as minhas forças e a minha saúde, para não perder, por minhas culpas, nem um pouco de maior felicidade. Dessa maneira, digo: se me perguntassem se quero ficar na terra até o fim do mundo com todos os sofrimentos nela existentes e depois em elevar um pouco mais na glória, ou se prefiro, sem nenhum padecimento, ir já gozar uma glória um pouco mais baixa, eu com boa vontade tudo padeceria para fruir um pouco mais de compreensão da grandeza de Deus, pois percebo que quem mais O entende mais o ama e mais O louva”. V 37, 2

Sobre o Livro da Vida
“Mas bendito trabalho, se conseguir dizer algo que leve alguém, ao menos uma vez, a louvar o Senhor”. V 40, 23

Relações
“porque me parece honra minha que Nosso Senhor seja louvado, pouco me importando tudo o mais. Isso bem sabe Ele, ou eu estou muito cega, já que nem honra, nem vida, nem glória, nem nenhum bem corporal ou da alma podem me deter, nem penso ou desejo benefício para mim, mas sim a Sua glória”. R 1, 25

Efeitos do enlevo
“ela (a alma) se esquece de si mesma para desejar que tão grande Deus e Senhor seja conhecido e louvado”. R 5, 8

Locução de Nossa Senhora
“Bem acertastes em por-Me aqui; Eu estarei presente aos louvores que derdes ao Meu Filho e os apresentarei a Ele”. R 25

Amor perfeito
“Aquele a quem o Senhor tiver dado essa graça deve louvá-Lo muito, pois deve ter muita perfeição”. C 6, 1

Vida Religiosa
“Disponhamo-nos a seguir esse caminho se Deus por ele nos quiser levar; se não for esse o caso, recorramos à humildade e tenhamo-nos por felizes em servir às servas do Senhor, louvando-O porque, embora merecêssemos ser escravas dos demônios do inferno, Sua Majestade nos permitiu ficar entre elas”. 

Oração de quietude
“Na qual, segundo me parece, o Senhor, como eu disse, começa a mostrar que ouviu a nossa súplica e a nos dar o seu reino para que O louvemos de verdade, santifiquemos-Lhe o nome e procuremos que o façam todos”. C 31, 1

Quartas Moradas
“Essas almas (...) em ocupar-se em atos de amor e de louvor a Deus, alegrando-se com a Sua bondade e com o fato de Ele ser quem é”. M IV, 1, 6.

Quintas Moradas
“Bem sabe o Senhor que não é outro o meu desejo (...) senão que seja louvado o Senhor nome e que nos esforcemos por servir a um Deus que nos recompensa com tanta generosidade já aqui na terra”. M V, 4, 11

Sextas Moradas
“porque o Senhor lhe tem dado maior entendimento para ver que nenhuma coisa boa é sua, mas dada por Sua Majestade; desse modo, põe-se a louvar a Deus, sem se lembrar do que lhe diz respeito, como se fosse uma graça dispensada a outra pessoa”. M VI, 1, 4.

“A alma gostaria de ter mil vidas para empregá-las todas em Deus. Quisera que todas as coisas da terra fossem línguas para louvar ao Senhor em seu nome”. M VI, 4, 15.

 “ela (a alma) gostaria de introduzir-se no mundo, a fim de contribuir para que ao menos uma alma louve mais a Deus”. M VI, 6, 3.

“Daria mil vidas, se tantas tivesse, para uma única alma, por seu intermédio, Vos louvasse um pouquinho mais”. M VI, 6, 4.

Sétimas Moradas
“Essas pessoas vivem em grande desapego de tudo e com um grande desejo de estar sempre a sós, ou ocupadas em algo que possa beneficiar alguma alma. Não as acompanham nem aridez nem sofrimentos interiores, mas apenas a lembraça de Nosso Senhor, e tal ternura para com Ele que desejariam dedicar todo o tempo aos seus louvores”. M VII, 3, 8. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

“Hábito Religioso e Louvor de Deus”

“Hábito Religioso e Louvor de Deus”

Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparatoso, e o devolveu a Pilatos. (Lc 23, 11)
Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes. (Lc 23, 34)
Aconteceu que, perplexas a esse respeito, apareceram-lhes dois varões com vestes resplandecentes. (Lc 24, 4)



             Quando fizemos os votos temporários e recebemos o Hábito religioso, o Pe Gilberto naquele dia 28 de fevereiro de 1998, pronunciou na sua homilia que da mesma forma que um policial ou um militar tem sua farda em serviço e essa indumentária o qualifica para exercer sua função, o religioso ao envergar o hábito religioso ele dá testemunho de evangelização e se coloca socialmente, é identificado como membro de uma congregação religiosa e testemunha ser da Igreja Católica e de Jesus Cristo.
            A veste, como nas passagens da Escritura acima, representa a própria personalidade da pessoa, por isso, que Jesus é vilipendiado por Herodes, é desnudado, remetendo a Adão que perdeu seu relacionamento com Deus (persona) pelo pecado, assumindo Jesus assim a nossa humanidade pecadora, e os anjos revestidos de vestes resplandecentes vem testemunhar que Jesus é ressurreto.
            Na história dos Institutos Missionários Servos e Servas de Jesus Salvador, brotou o desejo de usar o hábito, não como uma separação insossa do mundo, pois não somos do mundo, mas como missionários estamos no mundo (cf. Jo 17, 15) e nele exatamente queremos testemunhar Jesus Cristo e sua Igreja, portanto o Hábito Religioso é testemunho missionário da pertença a Deus e como na antiga história de São Francisco de Assis, sem falar nada, em nossas procissões pelo mundo proclamar que Deus existe e há pessoas que largam tudo para testemunhá-lo.
            Obviamente, vai surgir o velho adágio “o hábito não faz o monge”, e de fato não faz. Infelizmente o que não falta na história são pessoas que desonraram o hábito pelo seu comportamento. Lembremos, porém, que eles em primeiro lugar desdenharam do seu Batismo, e Batismo é revestir-se de Cristo, como na palavra Bathos em grego que é veste. Dessa forma, o problema é quem usa e não a veste em si. Por outro lado, muitos daqueles que entraram na vida religiosa, o primeiro sentir da vocação foi por causa do hábito, e isso é permissão de Deus, porém o que não se deve cair é numa idolatria do hábito religioso, um farisaísmo hipócrita, daqueles que usavam longas franjas para receberem a glorificação dos homens (Mt 23, 5).
            A partir do voto de pobreza, numa entrega total a Deus e para testemunhar Jesus Cristo e sua Igreja, aí sim o habito religioso se torna um verdadeiro louvor de Deus, pois a pessoa proclama pelas suas vestes que toda a sua ação procede de Deus e é para Deus. O nosso Pai Fundador Pe Gilberto quis que as nossas vestes religiosas tivessem a cor marrom, para nos lembrar de que somos pó e ao pó voltaremos (cf. Gn 3, 19). Assumimos a morte à qual somos entregues todos os dias (cf. 2 Cor 4, 11), por isso a partir do assumir da nossa pobreza em Cristo, renunciamos a toda moda, que é passageira, para assumirmos uma veste que aponta para o eterno, renunciamos a nós mesmos (cf. Mc 8, 34), a nossa individualidade e vaidade que busca aparecer, receber os holofotes e as glórias (kauchomai) do mundo, para assumindo a Igreja e glorificar (doxa) a Deus somente, somente a Ele o louvor e não a nós (cf. Sl 115, 1). Por isso, usar o hábito também exige do religioso um certo sacrifício, que vai desde a temperatura, o ser reconhecido por todos como religioso e prestar serviço correspondente, e porque não ser até ridicularizado. Nessa medida aquele que assume suas próprias fraquezas perante a morte que virá, pode assim permitir que a graça de Deus aja em suas ações pela graça e assim proclamar pelo hábito, pelo sinal exterior de sua consagração, que só Deus é Deus e assim suas vestes se tornam um louvor de Deus.
            Finalizando assim com a oração para os primeiros sinais religiosos que recebemos quando adentramos no Instituto, invocamos ao Pai e pede-se que os hábitos sejam o “primeiro sinal visível despertado neles de se consagrarem a ti. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém !” 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A urgência da Missão Impressões sobre o Retiro do Clero Salvista com Dom Azcona


A urgência da Missão
Impressões sobre o Retiro do Clero Salvista com Dom Azcona

            Tivemos um Retiro com Dom José Luiz Azcona, Bispo da Prelazia do Marajó, nos dias de 3 a 7 de setembro de 2012. O tema “Urgência da Missão” nos fez refletir como salvistas sobre a dimensão missionária do nosso carisma, o objetivo aqui é somente pontuar o que foi ouvido para futuras reflexões.
            A missão é o objetivo maior do Concílio Vaticano II e presente na “Carta Encíclica Redemptoris Missio” do Papa João Paulo II. A missão é fruto da fé, por isso é inútil falar em missão se não se falar em reavivamento da fé.
            Hoje percebemos grupos inteiros que se rebelam contra o Magistério Pontífício (lembremos do quarto voto de fidelidade ao papa), como padres na Áustria que querem de sacerdócio feminino até a quebra do celibato, ou religiosas norte-americanas que são a favor de relações homossexuais, masturbação, e outras coisas mais. Sob essas posições está o neo-pelagianismo, uma reedição da heresia combatida por Santo Agostinho, que não vê primazia na graça, mas a graça é apenas uma auxílio e que o próprio homem pode salvar-se; pragmatismo pastoral e ativismo, da mesma maneira o homem se coloca a frente da ação pastoral como se não houvesse Deus. Um workaholic pastoral, isto é um trabalhador compulsivo, um viciado em trabalho para fugir da própria vida. Também sob essas posições está também um superracionalismo, um orgulho intelectual, ou até um novo gnosticismo no qual o ser humano acha que pelo conhecimento se chega a Deus, despreza a ação da graça no ser humano de carne e osso, e se arroga a Deus como no caso da Torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9). Se de um lado podemos ver nessas posições todas, uma busca de uma liberdade irrestrita representada na Igreja no que se chamou progressismo, também no Tradicionalismo se vê o legalismo, como retorno ao Janseísmo, que absolutiza a lei e vê nela a salvação, nessa posição também está o orgulho humano que quer salvar a si mesmo.
            Nessa perspectiva vemos o enlace total entre fé – conversão – batismo – missão, como presente no livro dos Atos dos Apóstolos, principalmente no capítulo segundo. Sem essa relação a Missão não se sustenta. Por isso, nos é lembrado que a Igreja dando a fé é que Ela se fortalece. O envio missionário é para fazer discípulos, conversão é a resposta ao envio de Jesus. Conversão que é fruto de um arrependimento pleno dos pecados pela graça de Deus.
            O missionário para pregar a fé e a conversão, precisa viver uma conversão autêntica e contínua. Há falsas conversões que aparentemente parecem dar frutos, mas são vazias, pois se baseiam no orgulho humano, como no dizer de Mt 6, obras boas são feitas mas como são feitas para aparecer por orgulho e hipocrisia não convertem, pois não chamam a atenção para Deus, mas para si mesmos. Na perspectiva do carisma do “Louvor de Deus”, as nossas obras a partir da graça devem louvar unicamente a Deus, o único necessário (cf. Lc 10, 42), mais uma vez afirmamos o contrário desse Louvor é a hipocrisia, que realiza obras que aparentam louvor mas apenas apontam para o próprio aparecer.
            Nesse ponto devemos lembrar que nossa conversão é para Deus, e não para uma comunidade ou para uma estrutura, como alguns caem numa “eclesiolatria”, não veem a Igreja como Corpo de Cristo, mas somente como uma estrutura de poder humano. A conversão é para Jesus, para Deus, só a Ele devemos adorar (cf. Mt 4, 9).
            Conversão a Cristo e este crucificado, é esse que nós pregamos (cf. 1 Cor 2, 1-5), e é a partir da reconciliação com o Cristo Crucificado que ouvimos na pregação é que nos faz justificar o nome que recebemos: “salvistas” (cf. 2 Cor 5, 18-19).
            Diante de tudo isso queremos agora relacionar com o nosso carisma.
            Quando afirmamos que o nosso carisma é o Louvor de Deus, e que na medida que nos unimos pela Graça ao próprio Deus, nossas ações louvam e bendizem a Deus, pois a fé opera pela caridade (cf. Gl 5, 6). É impossível num pensar salvista deixar entrar um mínimo de ativismo vazio ou neo-pelagianismo, pois achar que qualquer obra não brota da graça de Deus, ela não é um louvor de Deus, mas sim obras da carne (cf. Gl 5), ou obras da lei (cf. Rm 3,20), por isso todo legalismo deve ser execrado. Por isso, a missão salvista nasce de uma busca de propiciar o encontro da pessoa com Deus (conversão), a partir dessa conversão a pessoa imersa na graça que nos vem dos sacramentos (graça), e que o salvista pelo esplendor litúrgico (dimensão batismal – sacerdócio real) propicia ainda mais a abertura da pessoa a essa graça, faz com que essa pessoa plena da graça faça obras da graça que se tornam um Louvor de Deus.
            O missionário salvista faz missão dessa forma e em qualquer lugar em que ele esteja, como no dizer do nosso Pai Fundador, Pe Gilberto, o salvista pode trabalhar em qualquer área na medida que ele siga o itinerário da graça e não de um neo-pelagianismo ativista ou de um legalismo vazio. Missionário que vive uma conversão contínua, vivida na contrição e confissão, e também no exercício da liturgia e do amor ao próximo, obras que Louvam a Deus propiciando a santificação pessoal e comunitária.
            Missão, um esquema do processo na Graça de Deus:

Conversão
Batismo
Missão
Igreja (Corpo de Cristo)



Deus
Dimensão Eclesial
Obras que Louvam a Deus
Batismo no Espírito
Espiritualidade Carismática
Esplendor
Liturgico
Missão Salvista
(santificação pessoal e comunitária)
4º voto
Vivida pelo salvista


            Que Deus pelo seu Espírito Santo nos ajude para que esses pontos possam cada vez mais nos fazer entender o carisma salvista do “Louvor de Deus’, para que Jesus Salvador possa ser cada vez mais anunciado e louvado e assim Deus seja tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

ADORAÇÃO E O CARISMA DO “LOUVOR DE DEUS”



ADORAÇÃO E O CARISMA DO “LOUVOR DE DEUS”

“Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:
Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.” (Mt 4,13)[1]


            A palavra adoração, tanto no hebraico com hawa ou Shachah, ou no grego como na passagem acima, proskuneo, tem a conotação de prostração, com o significa de submissão. Significado advindo do gesto de alguém que se submete ao rei, se prostrando diante dele, o reconhecendo como soberano. Agora, será que Deus quer esse tipo de submissão? Cremos que não. Não é a submissão de escravos que Deus deseja, mas de filhos que o reconhecem como a fonte salvadora,
“Vede, agora, que Eu Sou, Eu somente,
e mais nenhum deus além de mim;
eu mato e eu faço viver;
eu firo e eu saro;
e não há quem possa livrar alguém da minha mão” (Dt 32,39)
            Deus é a fonte da vida, e o gesto de adoração, de prostrar-se é reconhecer por um lado a nossa pequenez perante o Criador e a nossa dependência, por outro lado é prestar culto, adoração, latria, o servir ao Soberano, àquele que é o Senhor, mas que é o Deus compassivo e clemente, como diz Moisés:

“E, passando o Senhor por diante dele, clamou: Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” Ex 34.6.

            A proibição de adorar imagens advém exatamente disso, de não se prostrar e reconhecer numa imagem ou ser humano a fonte da vida, se se prostra perante algo, como a Arca da Aliança, por exemplo, é reconhecer nela o instrumento no qual Deus atua e portanto o instrumento de se chegar a Fonte da Vida (cf. 2 Sm 6).
            Diante de tudo isso o que seria o pecado da idolatria? Idolatria, num conceito bem amplo, é ter qualquer coisa ou pessoa no lugar de Deus como Fonte da Vida. A prostração não precisa ser física, basta fazer qualquer coisa reconhecendo o outro ou o instrumento ou a sociedade ou seja lá o que for como Fonte de Vida, que pode sustentar a minha vida.
            A condenação à adoração de outros deuses vai nessa perspectiva, porque eles não são nada, não podem dar a vida, como no dizer do profeta Jeremias: “Este povo maligno, que se recusa a ouvir as minhas palavras, que caminha segundo a dureza do seu coração e anda após outros deuses para os servir e adorar, será tal como este cinto, que para nada presta” (Jr 13, 10).
            O carisma do “Louvor de Deus”, quer mostrar que tudo o que somos e fazemos louva e bendiz a Deus, e porque não dizer que tudo o que somos e fazemos adora ao Senhor Nosso Deus. Por isso, é inaceitável na vivência do carisma o se prostrar perante qualquer coisa que seja nada, novamente dizemos, não nos prendamos ao ato em si, porque como Davi podemos reconhecer na Arca da Aliança o instrumento para chegar até Deus, como no nosso caso de católicos que somos reconhecemos a Nova Arca da Aliança em Maria Santíssima um instrumento perfeito para se chegar até Deus, nessa dimensão se entende a Teologia da Consagração a Nossa Senhora proposta por São Luís Maria Grignon de Monfort.
            Queremos, na perspectiva do carisma, estar atentos a outras idolatrias muito mais perniciosas que vão penentrando em nosso ser sem nos apercebermos disso. Nos prostramos diante do dinheiro, do sexo, de um time, da beleza, da vaidade, do corpo, do reconhecimento, do aplauso, e em muitas outras coisas, pessoas, situações, tendo-as como fonte de nossa vida. E como o fazemos? Não é muito difícil de discernir. Na medida em que atribuimos valor de vida e morte ao que podemos chamar de ídolos, estamos sendo idólatras. Quando se chega ao ponto de matar alguém, ou querer sua morte, ódio e apego ao poder, na medida em que passamos sobre a vida, sustento e a vocação de pessoas para conseguir agradar ao ídolo, que normalmente reflete a nós mesmos, somos idólatras, vivemos a hipocrisia e não o “Louvor de Deus”. Quando nosso egoísmo dita as nossas decisões de tal forma que não pensamos e não nos colocamos no lugar dos outros, o ídolo que somos nós é que adoramos. Na medida em que colocamos como ponto de partida em nossa vida e como ponto de chegada o ídolo, pautamos nossa vida, experiências e o principal começamos tomar decisões, das quais brotam nossas ações, para agradar o ídolo, somos idólatras.
            O carisma é a base da Fraternidade Jesus Salvador, assumimos a alcunha de salvistas. Servos de Jesus Salvador, o nome de "servo" brota exatamente da dimensão de adoração, servir a Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Agora aqueles que querem anunciar pela vida e pelas próprias decisões que só Um pode salvar, isto é Deus, chamados salvistas vão ter outras fontes de vida, vão valorizar a vaidade?  Vão lutar por realidades vazias? Valorizarão de tal forma a riqueza, o poder ou pessoas de tal forma que se tornem salvadores? Não.
             Por isso, para viver esse carisma, devemos rezar para que todo e qualquer ídolo seja quebrado em nossa vida, mas não devemos esperar que Deus quebre nossos ídolos, são nossas mãos que devem quebrá-lo, e se for o caso de bebermos a água como o pó dos ídolos que tínhamos (cf. Ex 32, 20), experimentando o gosto amargo de nossa idolatria e isso servir para reconhecermos que um só é a Fonte da Vida, que assim seja. Antes assim, do que no fim da  nossa vida, de uma vida vazia porque pautada em decisões que brotaram da vaidade idolátrica, do vazio da idolatria, encaminharmo-nos para o Inferno.
         Nessa perspectiva rezemos para que o “Louvor de Deus” cresça em nós sem cessar e que nenhum espaço haja em nosso coração, no lugar mais íntimo da nossa tomada de decisão, para a idolatria, e com nosso coração cirscuncidado somente a Deus adoremos e só a Ele prestemos culto.


[1]Sociedade Bíblica do Brasil. (2003; 2005). Almeida Revista e Atualizada - Com Números de Strong (Mt 4:10). Sociedade Bíblica do Brasil.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sacrifício Espiritual: O louvor de Deus na visão Paulina


“Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12, 1-2).

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Sacrifício Espiritual: O louvor de Deus na visão Paulina

            São Paulo na carta aos Romanos resume toda a sua doutrina, após ter demonstrado nos capítulos 9 a 11 a sua dor pelo povo judeu do qual ele faz parte por não ter aderido a Cristo, professa ao final que Deus se mantém fiel à Aliança com os judeus e que é insondável o juízo de Deus, há coisas que não entendemos e que temos que entregar em suas mãos divinas (cf. Rm 11, 33).
            Por isso, o Capítulo 12 começa com um “pois” ou “portanto” (oun) concluindo que a partir de agora, dirigindo-se aos cristãos na dimensão da Nova Aliança, estes devem oferecer um sacrifício verdadeiro e espiritual. A mesma misericórdia de Deus que garante a Aliança com os judeus, são as mesmas misericórdias que possibilitam aos cristãos oferecerem a própria vida como um sacrifício agradável a Deus.
            Esse sacrifício a partir de agora é um sacrifício vivo (Thusian Zosan), a própria vida do cristão deve ser um sacrifício agradável a Deus, pois o que Deus quer não são sacrifício e holocausto, mas um espírito contrito e esmagado, um sacrifício espiritual, um sacrifício de louvor ou de justiça (cf. Sl 50, 20-21). Na mesma linha, Jesus diz à samaritana, que os verdadeiros adoradores são aqueles que adoram em espírito e verdade (cf. Jo 4, 24).
            Esse sacrifício vivo, oferecido de forma santa e agradável, é o sacrifício da própria vida do ser humano que por decisões verdadeiras, imersas na graça e na misericórdia de Deus, transformam-se em obras da graça, e não em obras da carne (cf. Gl 5, 19) e nem em obras da lei (cf. Rm 3, 20), obras que louvam a Deus, pois a fé opera através da caridade, se mostra através desta (cf. Gl 5, 6).
            No dizer de São Paulo, esse sacrifício, é um culto espiritual. Traduzido também como “culto racional”, “serviço racional”, tentando assim traduzir a expressão grega “logiken latreian”. Culto como adoração, culto de latria, isto é , um culto destinado exclusivamente a Deus. Esse culto é um culto racional, lógico, do grego logikos, isto é, um culto que expressa todo ser da pessoa, como o Verbo (logos) se fez carne (cf. Jo 1, 14), e é considerado como na formulção da Carta aos Hebreus, Jesus é a expressão do ser de Deus (cf. Hb 1, 3) ou a imagem de seu ser, portanto um culto espiritual, logiké, nada mais é que a entrega total do ser humano a Deus, de tal forma que cada ato de sua vida torna-se pleno do ser da pessoa unida a Deus e esse ato é um louvor a Deus.
            É nesse sentido que no versículo segundo a exortação continua solicitando a cada cristão transforma-se a si mesmo, renovando a forma de pensar, de decidir, de modo a discernir qual é a vontade de Deus. Na medida em que cada ser humano vai sendo imerso nas misericórdias de Deus, deixa-se transformar, cada ato se torna um louvor ao próprio Deus, dessa maneira não se pode misturar qualquer sombra de pecado, egoísmo ou outros pensamentos carnais (cf. Gl 5, 16-26), mas sim frutos verdadeiros do Espírito Santo.

O itinerário seria esse:

1. O ser humano no Mistério Pascal é imerso na graça ou misericórdia de Deus
2. Nessa medida pode assim oferecer-se a si mesmo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.
3. Esse sacrifício é um culto de latria mas espiritual, isto é, o ser humano se entrega a Deus por atos de amor e de justiça feitos a Deus e ao próximo.
4. Para que esse processo seja perfeito é necessário uma purificação interior de qualquer pensamento carnal e tomar decisões segundo a vontade de Deus.

A LIBERDADE E LOUVOR DE DEUS COMO FIM ÚLTIMO DO HOMEM

    INSTITUTO SUPERIOR DE FILOSOFIA E TEOLOGIA SÃO BOAVENTURA     DANIEL RIBEIRO DE ARAÚJO                   ...