sábado, 30 de abril de 2011

“Pobreza como Louvor de Deus”


“Pobreza como Louvor de Deus”

“...não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pr 30, 8)


            Jesus se fez pobre, esvaziou-se (Fp 2, 7), e com isso, pela sua própria carne e em seus atos louvou a Deus. A pobreza nos faz buscar a insondável riqueza de Cristo (Ef 3, 8).
            O que Deus quer de cada um de nós não é uma pobreza negativa, uma pobreza que nos priva do necessário para viver, essa pobreza não é vontade de Deus. Essa pobreza não louva a Deus. A vontade de Deus é que haja uma pobreza positiva, que como a frase acima, tenhamos o pão, aquilo que é necessário para vivermos e assim buscar o Único necessário, que é o próprio Deus (cf. Lc 10, 42).
            A pobreza não é somente naquilo que se refere a dinheiro, mas também tudo aquilo que buscamos como recompensa, é buscar a glória própria, a fama, tudo aquilo que de um modo ou de outro seria querer a atenção de outro, dominar através da aparência. A ostentação é um mal, e nunca um coração que queira atrair a atenção de outro por bens materiais pode ser um coração que louva, pois suas obras brotam de uma intenção de atrair a atenção para si e não para Deus.
            O coração pobre, os pobres em espírito (cf. Mt 5, 3), são aqueles que no seu espírito vivem a pobreza, e sua única riqueza é o Reino de Deus.
            Um exemplo é:
“Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17, 10).
            A palavra inútil, é achreios, do grego que significa aquilo que é inútil, ou que não satisfaz nenhuma necessidade humana.
            Interessante que a única menção dessa palavra na tradução grega do Antigo Testamento (LXX), é:
“Ainda mais desprezível me farei e me humilharei aos meus olhos; quanto às servas, de quem falaste, delas serei honrado” (2 Sm 6, 22).
            Traduzindo o se humilhar (hebr. Shaphal), é por achereios, Davi dança sem parar perante a arca louvando o Senhor. Micol sua esposa o despreza, dizendo que ele fez um papel ridículo perante os servos, e Davi responde que ele pode ser um achereios, um inútil, mas sua vida louva a Deus, e ele colocará sua força nisso.
            Mas, como escolher? Como tomar decisões que sejam pobres? Afinal, hoje vivemos num mundo cuja tecnologia nos propicia coisas, e muitas coisas a preço extremamente barato. O que é ser pobre num mundo, no qual um telefone celular dispõe comunicação automática, a um preço pequeno, comparado a dez anos atrás isso era impossível. O que é ser pobre?
            A pobreza deve estar ligada a obra de amor que louva a Deus. Esse é o fato concreto, tudo o que é ostentação, seja na beleza, ou também na falsa humildade, é ir contra a pobreza.
            Por exemplo, um missionário na África vive sua pobreza, e ele deve dispor dos meios necessários para sua sobrevivência e para bem exercer sua missão, seja que meios forem. Se há a possibilidade de que ele tenha um jipe, repito se há, e até disponham para este missionário, por exemplo através de benfeitores, uma Land Rover, que pode chegar a custar até R$ 132.000,00, se há um benfeitor que faça isso, isso não vai contra a pobreza, pois esse automóvel servirá para auxiliar pessoas, em todas as suas dimensões,  agora uma pessoa em São Paulo, um missionário que cria necessidade para ter um automóvel desse é ostentação.
            Outro exemplo, será que se vive pobreza não cuidando da saúde, dando tudo aos pobres, cuidando deles e não cuidando da própria saúde, isso vai contra a pobreza, é o que se chama pobreza negativa e nesse caso uma pobreza burra, pois se não há força como cuidar de outros. Um São Pedro Canísio que reenvagelizou a Alemanha, comia por três, mas trabalhava e andava por um número muito maior que três.
            Então, a pobreza deve ser avaliada pelo Louvor que ela prestará a Deus, pesando todas as dimensões da vida humana, a física, psíquica e religiosa. Nessa escolha:
- deve-se evitar tudo o que seria ostentação, e ver a utilidade do bem na missão, seja que missão for, inclusive do leigo no mundo;
- ter sempre a frente uma hierarquia de prioridades, e pedir a luz do Espírito Santo, para hierarquizar segundo a pobreza e a utilidade da missão;
- nunca criar necessidades, para justificar a posse de bens;
- em tudo pedir conselhos, buscar a obediência, para orientar-se nas escolhas.
             A pobreza deve ser Louvor de Deus, seja na conversão de pessoas na missão ad gentes ou seja no cuidado dos pobres, e não na ostentação ou numa falsa humildade que também seria ostentação. Afinal, a pobreza deve viver o princípio básico, “A verdade vos libertará” (Jo 8, 32).

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Castidade como Louvor de Deus


Castidade como Louvor de Deus


Considerando que a nossa vida deve ser um Louvor de Deus, é “conditio sine qua non” que esta vida louve a Deus através de pensamentos e atitudes castas, como no dizer do Catecismo da Igreja Católica: “A castidade significa a integração da sexualidade na pessoa. Inclui a aprendizagem do domínio pessoal”  (n. 2395). Então para que haja um Louvor de Deus casto, a pessoa em seus atos deve viver sua doação total de forma integra (n. 2337), mas o que significa isso? O ser humano quando ama deve se doar totalmente e não ter o mínimo interesse instrumentalizante do outro, obviamente dentro da vocação a qual foi chamado seja no celibato ou no casamento. Por isso, quando amamos alguém o nosso olhar, gestos, fala, deve estar despojado de qualquer intenção de tornar o outro apenas um fator de satisfação de meus instintos egoístas. Mas há imaturidades em nós na área da castidade, então o que fazer? O princípio é entender nossos apegos, os rompimentos feitos na vida e que deixaram carências, a consciência cada vez maior dessas carências nos vai dar o autodomínio que fala o Catecismo. Autodomínio não nasce de uma mentalidade sado-masoquísta ou de negação do corpo, mas do autoconhecimento como diz Santa Teresa de Jesus em seus escritos. O conhecimento da nossa educação afetivo-sexual, principalmente    a nível simbólico, conhecer como a criança que há em nós foi educada nos vai dando a segurança necessária. Quanto mais conhecemos nossa insegurança afetiva, sempre na graça de Deus, vamos nos tornando seguros para verdadeiramente nos doar aos outros. Alguém poderia levantar o problema, se eu for esperar a resolução de meus problemas quando poderei ter um relacionamento sadio? A perfeição só na ressurreição final de nosso corpo. Por isso, é necessário a cada relacionamento, com cada pessoa, ir conhecendo nossas opções e intenções, essa é a vigilância tanto propalada nos Evangelhos. Porque o ser humano, não pode viver sozinho, e a amizade faz parte do crescimento de uma castidade verdadeira, como traz o Catecismo: “A virtude da castidade desabrocha na amizade. Mostra ao discípulo como seguir e imitar Aquele que nos escolheu como seus próprios amigos, se doou totalmente a nós e nos faz Participar de sua condição divina. A castidade é promessa de imortalidade. A castidade se expressa principalmente na amizade ao próximo. Desenvolvida entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, a amizade representa um grande bem para todos e conduz à comunhão espiritual” (n. 2347). Os Padres da Igreja já alertavam que uma castidade que endurecesse o coração não seria uma castidade do Reino dos Céus, a castidade deve nos dispor e ensinar a ter amizades verdadeiras, com doação verdadeira. Por outro lado, não podemos ter atitudes de tornar o outro um instrumento em nossas mãos. Jesus pelas suas atitudes demonstra ser uma pessoa que tem amizades verdadeiras e que acolhe a demonstração afetiva das outras pessoas. Como no caso da pecadora na casa de Simão, o fariseu: “E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento” (Lc 7, 37-38). [1] Jesus elogia a atitude da mulher, que orienta exclusivamente pelo arrependimento, como demonstração deste e de seu amor, externaliza-o afetivamente. A castidade é efetiva, porque se externaliza por atos de doação e é afetiva, porque é através do afeto que sua doação se realiza. Jesus acolhe a atitude afetiva dessa pecadora e em público, não se restringe pelo medo, Jesus não se importa com o fariseu, muito pelo contrário, Jesus cobra do fariseu sua frieza no acolhimento. Também por ter uma atitude totalmente unificada Jesus não tem porque se esconder dos olhos humanos. E por fim sentencia “Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7, 47) a demonstração do amor da pecadora expressa o seu total arrependimento. Concluindo o coração da pecadora se unifica ao ir afetivamente ao encontro de Jesus que perdoa, e este tem um coração uno o bastante para acolhê-la. Qual seria nossa atitude, tanto no lugar de Jesus ou da pecadora? Outros exemplos de demonstração afetiva pode ilustrar a castidade como louvor de Deus. O acolhimento do Pai ao filho que se extraviou não é formal, mas se expressa assim: “E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lc 15, 20). Jesus também acolhe e abraça crianças, novamente sua atitude é casta, pública e acolhedora, e repreende quem o impede de acolher as crianças:
“Depois disso, algumas pessoas levaram as suas crianças a Jesus para que ele as abençoasse, mas os discípulos repreenderam aquelas pessoas. 14 Quando viu isso, Jesus não gostou e disse:
— Deixem que as crianças venham a mim e não proíbam que elas façam isso, pois o * Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças. 15 Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança nunca entrará nele. 53
16 Então Jesus abraçou as crianças e as abençoou, pondo as mãos sobre elas.”[2]
Jesus novamente acolhe, abençoa e impõem as mãos sobre as crianças, e repreende aqueles que impedem as crianças de irem até ele. Novamente, seus atos são públicos, castos e são bênção para quem vem até Ele, é uma atitude unificada e unificante. E nos convida a sermos como crianças, porque delas é o Reino dos Céus.
Por outro lado, também, Jesus condena a afetividade dúbia de Judas Iscariotes, que com o coração dividido pela ganância e pela traição, utiliza-se de um ato de amor, como o beijo, para entregar Jesus (cf. Lc 22, 48). Por fim, com toda a interpretação teológica que possa ser feita, o contexto é a pergunta sobre quem é o traidor, o fato afetivo é muito bem esclarecido no contexto da ceia, a qual se celebrava reclinado:
Ora, z um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.
24 Então, Simão Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava.
25 E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é?
Cada um pode ter uma visão de castidade, mas Jesus é o modelo perfeito em tornar nossos atos castos que louvam a Deus, construindo verdadeiras amizades, porque a única intenção que temos é a doação que Ele mesmo fez (cf. Jo 13, 31). Esses atos se tornam louvor de Deus, porque aproximam o ser humano de outros seres humanos e de Deus, são atos verdadeiramente castos e por conseqüência verdadeiramente amorosos.


[1]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. Lc 7:39


[2]Sociedade Bíblica do Brasil: Nova Tradução Na Linguagem De Hoje. Sociedade Bíblica do Brasil, 2000; 2005, S. Mc 10:16

[3]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Corrigida. Sociedade Bíblica do Brasil, 1995; 2005, S. Jo 13:25

domingo, 13 de fevereiro de 2011

“Louvor de Deus: Santificação pessoal e comunitária”


“Louvor de Deus: Santificação pessoal e comunitária” (Const. n. 5)

            Padre Gilberto quando escreveu seus primeiros escritos, que a vivência do Louvor de Deus, primeiramente na Liturgia, deveria ter por conseqüência obrigatória a santidade pessoal e comunitária. Repare-se, que é santificação a partir da pessoa, que já traz a dimensão de relação, portanto comunitária. Não existe, na dimensão cristã, santidade individual.
            A Igreja é comunhão, e por ser comunhão a comunidade concreta deve viver essa comunhão, pois a essência cristã é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo (cf. Lc 10, 25-28), é um mesmo amor, do amor que brota da fonte que é Deus tem por objetivo o próximo, e no amor ao próximo aprendemos a amar a Deus a quem não vemos (cf. 1 Jo 4, 20).
            Portanto, seja na vida religiosa ou fora dela, o amor é o maior louvor de Deus como já transcorremos em outra publicação. Como diz o documento “Vida Fraterna em Comunidade” da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, citando o papa João Paulo II: «Toda a fecundidade da vida religiosa depende da qualidade da vida fraterna em comum. Mais ainda, a renovação atual na Igreja e na vida religiosa é caracterizada por uma procura de comunhão e de comunidade». Portanto, sem vida fraterna de qualidade não existe vida religiosa, em nossas comunidades paroquiais o mesmo raciocínio, se não há preparação e educação das pessoas para o amor verdadeiramente cristão em comunidade não existirá paróquia, e não existindo amor vivido e aprendido em comunidade na graça de Deus, não existirá nunca Louvor de Deus.
Um conceito de amor: O amor como Entrega consiste em primeiro lugar em ver, em estar atento à realidade do outro. Depois se mover de compaixão, todo o nosso ser estar voltado para auxiliar o outro em sua real necessidade, doar a nossa vida, tempo e qualidades para satisfazer as verdadeiras necessidades do próximo, para que o necessitado tenha vida e possa tornar-se assim um ser humano livre. É preciso estar sempre à disposição, estar presente a cada instante na vida do necessitado. Mas nesse processo estar conscientes do sofrimento que isso gera e assumir tal sofrimento na Cruz do Senhor Jesus Cristo. A Entrega gera vínculos que perduram pela eternidade, uma aliança eterna em Cristo que satisfaz o coração humano. Esse amor-entrega, que procura fazer o bem (cf. At 10, 38), é graça de Deus e é o fundamento da motivação humana, isto é, do mover do coração humano (cf. Lc 10, 33).
Também, num contexto de vida em comunidade surge a figura do dominador: a dominação surge no coração do ser humano que, não aprendendo amar e ser amado, não aceita a sua condição de necessitado e encastela-se. O dominador procura subordinar o outro, absorvê-lo, numa busca de uma falsa união através da hipocrisia. Essa dominação, que pode se transvestir de amor, caracteriza-se principalmente em instrumentalizar o outro na falsa tentativa de satisfazer as próprias necessidades. Tudo isso gera nas relações humanas desconfiança e por fim separação.
Diante da necessidade da vida em comunidade, porque nela se aprende a amar, e a verdadeiramente saber se somos santos, como diz Santa Teresa de Jesus: “A pessoa que sempre está em isolamento, por mais santa que possa considerar-se, não sabe se é paciente ou humilde, nem tem meios de sabê-lo? Como saber se um homem é valente se nunca o virmos em batalha? (...) E considero maior graça de Deus um dia de humilde autoconhecimento, mesmo à custa de muitos sofrimentos e aflições, que muitos dias de oração (...) E acreditai-me: o que beneficia a alma não é um longo tempo de oração, já que, quando empregamos bem o tempo em obras, isso muito nos ajuda a, em breve, conseguir uma disposição para acender o amor muito superior à alcançada em muitas horas de consideração. Tudo vem das mãos de Deus. Bendito seja Ele para sempre” (Fundações, 6, 15-17).
É na vida em comunidade que deixamos de ser dominadores e instrumentalizadores das pessoas e passamos a um amor de entrega como o amor de Jesus, “Amai-vos uns aos outros como eu Vos amei” (Jo 13, 31), amor de cruz.
Por isso, é muito interessante ver alguns tipos, tipos ideais de vivência em comunidade para ilustrar a dominação e podermos chegar ao amor perfeito, como está no salmo 18 a natureza fala da voz de Deus:

- o Chupim – o animal que se aproveita do ninho do tico-tico para botar seus ovos e este último criar seus filhos, é muito interessante ver um pássaro preto, o dobro do tamanho daquele que o cria, suplicando comida. Em vida em comunidade surge a figura do esperto, daquele que se esgueirando procura todas as oportunidades possíveis para colocar as pessoas a seu serviço. O importante, como numa propaganda antiga, é levar vantagem em tudo, é não fazer nada e colocar os outros a trabalhar para si.

- o Morcego – o animal famoso, tantas vezes retratado como vampiro, ao atacar outros animais anestesia com sua saliva para o seu dominado não perceber que está sendo sugado. É a figura utilizada para figurar o psicopata ou sociopata social, é a figura nefasta em vida em comunidade, frio e calculista, procura manipular tudo a seu favor, procura não como o Chupim, obter vantagens, instrumentaliza os outros, inclusive em sua afetividade para seu bel prazer. O Anestésico pode ser desde dinheiro até favores pessoais, iludindo seu dominado como se fosse amor, mas é pura utilização, e quando satisfeito na sua fome de sangue, joga fora o outro como um copo plástico descartável.

- o Predador – seja um leopardo ou um tigre, a técnica de afastar sua vítima do rebanho para dominá-la e devorá-la está presente nesse tipo, ele quer utilizar-se do outro, mas para não ficar evidente isso diante dos outros, afasta o seu dominado da vida em comum e suga sua vida, é aquela pessoa que a frente de uma comunidade não cria comunidade, mas prende as pessoas a si mesma. E para que isso não fique evidente, utiliza-se da técnica do Império Romano, divide para governar.

- o Cachorrinho de estimação – o cachorrinho que é dócil, balança o rabo para todos que adentram ao lar, que aceita qualquer tipo de atitude, e se joga ao chão para se defender, é a figura daquela pessoa que em vida de comunidade diz sim para tudo, tudo aceita, tudo é fonte de santidade, não tem personalidade nenhuma, não existe limites, tudo é permitido. É o dominado perfeito, essa pessoa é tão perigosa quanto o morcego, pois ao assumir um cargo se torna um predador perfeito.

- o Tubarão – o totalitarista, aquele que domina os oceanos e não tem outro perigo a enfrentar, é o sonho de um Hitler, o poder total, a submissão total de todos, ele não é um rei, é nem somente um dominador, é aquele que despersonalisa as pessoas, quer fantoches e obediência cega, surda e muda.

- o Quero-quero – ave que vive em conjunto, e que ao menor problema grita, grita sem parar, tipo ideal daqueles que vivem em comunidade, mas tudo é problema, o eterno adolescente que a única coisa que sabe é reclamar e querer, pedir e solicitar, sua vida é marcada pelo pedir, seu sonho de consumo é tudo, a vida vazia se resume nisto. O reinvidicador, mas que não olha a justiça, é o desequilíbrio do cachorrinho, para esta ave nada, abslutamente nada está bom, como no dizer de Jesus: “Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros:
Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes” (Mt 11, 16-17).

- o bicho preguiça – é aquele que vive o seu mundo e somente seu mundo, nada o incomoda, atrasa com a maior tranqüilidade, mas nada é problema para uma pessoa que vive o seu mundinho, o importante é dormir e o restante outras pessoas cuidarão, para esse bicho, totalmente otimista, tudo dará certo, “para que trabalhar, se tudo acabará”, nada é incomodo, só que pessoas assim se tornam peso para os outros.

- a hiena – animal que come carniça, mas seu som é muito caracterizado como uma gargalhada, o importante é sorrir, o sorriso resolve tudo, não importa o que aconteça, não importa os problema, o importante é levar tudo na brincadeira, se alguém está doente, não há problema, amanhará ela ficará boa, mas não faz nada para melhorar, pois vive de carniça e seu sorriso, muitas vezes irônico ou infantil, resolve todos os problemas, se há uma grande desavença, no outro dia se sorri como se nada tivesse acontecido, como um bom bipolar.

- a raposa – vive do roubo e da rapina, sorrateiro, ninguém percebe, como em vida em comunidade essa pessoa rouba, mata e destrói, mas na maior classe, tem uma aparência de honestidade e de santidade que é invejável, e se é preciso mentir, mente para manter sua imagem de boa pessoa, enquanto nos bastidores vai rapinando os ovos das galinhas.

- o urubu – O papa João XXIII, no seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II, atacou os chamados “profetas das trevas”, como o urubu essas pessoas vêem o mal em tudo, vivem da morte e da carniça de outras pessoas, diferente da hiena, que ri, o urubu é soturno, semeia um pessimismo sem fim, e fica feliz quando tudo dá errado.

Depois desse zoológico, qual seria o animal que poderia ser o ícone da vivência em comunidade? O próprio Jesus nos dá esse exemplo:

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mt 23, 37)

            Claro que poderíamos ver as virtudes nos animais acima, a coragem do leopardo, a simpatia de um cachorro de estimação, etc. Mas Jesus, toma a galinha, animal doméstico, que busca reunir, busca ser mãe daqueles que lhe foram confiados, dando-lhes vida. Como São Francisco de Assis, que exortava seus irmãos a serem pai e mãe uns dos outros. A galinha quer não somente um pintinho, quer que todos se reúnam, quer protegê-los. Mas não é um animal letárgico, quando vê sua cria atacava, incha-se e vai ao ataque. Por outro lado, não quer que seus filhos fiquem sempre pequenos, no processo do seu crescimento os ensina a comer e a procurar comida, pelo seu exemplo em primeiro lugar. Jesus chora sobre Jerusalém desunida ao dizer isso, seu sonho, que deve ser o nosso, é que “todos sejam um” (cf. Jo 17, 21).

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Louvor É de Deus


“O louvor de Deus: O Louvor É de Deus, o Louvor é propriedade d’Ele”



      O louvor de Deus é vida que proclama que Deus é Santo. Nessa perspectiva, os nossos atos devem ser considerados como resultado da graça de Deus como obras da Graça de Deus, e não, como no dizer de São Paulo, obras da lei, aquelas que brotariam do nosso orgulho em querer fazer algo pelas próprias forças: visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem...” (Cf. Rm 3, 20-22). Mas tudo o que há de bom em nós e que fazemos é resultado da ação de Deus em nós, como diz o mesmo Apóstolo: “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2, 13).
O que nos resta é o que a Igreja denomina “mérito”, que advém da graça, como traz o Catecismo da Igreja Católica: “Diante de Deus, em sentido estritamente jurídico, não há mérito da parte do homem. Entre Ele e nós a diferença é infinita, pois dele tudo recebemos, dele, que é nosso criador. O mérito do homem diante de Deus, na vida cristã, provém do fato de que Deus livremente determinou associar o homem à obra de sua graça. A ação paternal de Deus vem em primeiro lugar por seu impulso, e o livre agir do homem, em segundo lugar, colaborando com Ele, de sorte que os méritos das boas obras devem ser atribuídos à graça de Deus, primeiramente, e só em segundo lugar ao fiel. O próprio mérito do homem cabe, aliás, a Deus pois suas boas ações procedem, em Cristo, das inspirações do auxilio do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2007-2008).
Entretanto, qual é a razão do Louvor de Deus para o ser humano? Como traz o prefácio comum IV, chamado de “o Louvor, dom de Deus”, os nossos louvores não são necessários a Deus, mas é Ele que nos concede o dom, a graça de o louvar. E ainda mais, ao louvarmos a Deus sempre devemos nos lembrar que esses louvores “nada acrescentam ao que sois, mas nos aproximam de vós, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”.
Por isso, os exemplos que nos dão a Sagrada Escritura, daqueles que foram mais próximos de Deus, são aqueles que deixam a graça de Deus agir e com sua própria vida apontam para Deus. Moisés “era um homem humilde, o mais humilde do mundo” (Nm 12, 3), mas é esse Moisés que fala com Deus face a face (cf. Dt 34, 10). Como Maria, que foi a Mãe do Senhor, proclama o louvor de Deus e considera-se a Serva do Senhor (cf. Lc 1, 38.43.47ss). Dentre muitos outros exemplos, como João Batista, cuja frase deve ser como um lema daquele que quer viver o carisma do Louvor de Deus; São João Batista diz com relação a Jesus: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 30). Interessante que o verbo “crescer” (aucsanein), no grego, está no infinitivo presente ativo, enquanto, o verbo “diminuir” (elattousthai) está no infinitivo presente passivo, isto é, enquanto Jesus deve crescer, cada um deve ser diminuido, deve se submeter a Deus e que o Senhor se encarregue de nos colocar em nosso lugar.  
Nessa perspectiva, em tudo é o Senhor que deve tomar a frente, em nossa vida tudo, e ainda mais no centro do louvor que é a Liturgia Sagrada, deve ser banido tudo o que é, na linguagem do Papa Bento XVI, protagonismo: “Contradiz a identidade sacerdotal toda a tentativa de se colocarem a si mesmos como protagonistas da acção litúrgica. Aqui, mais do que nunca, o sacerdote é servo e deve continuamente empenhar-se por ser sinal que, como dócil instrumento nas mãos de Cristo, aponta para Ele. Isto exprime-se de modo particular na humildade com que o sacerdote conduz a acção litúrgica, obedecendo ao rito, aderindo ao mesmo com o coração e a mente, evitando tudo o que possa dar a sensação de um seu inoportuno protagonismo. Recomendo, pois, ao clero que não cesse de aprofundar a consciência do seu ministério eucarístico como um serviço humilde a Cristo e à sua Igreja” (Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, N. 24). Isso deve ser aplicável não somente aos sacerdotes ministeriais, nenhuma pessoa deve se antepor a Deus, seja na celebração eucarística ou fora dela, tudo o que recebemos como reconhecimento das pessoas deve ter por referencial único a Deus, e para evitar qualquer tipo de falsa humildade, o mérito virá com certeza, mas é Deus quem vai dispor como esse mérito virá, e quando ele virá, mais uma vez nós cristão, louvaremos a Deus, que nos usou como instrumentos, e mais uma vez, louvando os méritos nossos e dos outros, estaremos louvando o Senhor nosso Deus.
Enfim, o Louvor É de Deus, e somente D’Ele, e que Ele nos ensine a ter a visão correta e equilibrada de Louvor de Deus, Mérito e Graça, para que assim, nunca busquemos qualquer tipo de recompensa, não como os hipócritas que rezavam nas esquinas das praças para aparecer, tendo o reconhecimento dos seres humanos eles já receberam a própria recompensa (misthov) no grego como um pagamento de algo feito, senão aquela recompensa que o Senhor nos dará, (apodósei) o próprio Senhor, a sua entrega (cf. Mt 6, 5-6), e afinal de contas, a Única recompensa que podemos querer é o próprio Senhor, como era dito aos levitas: “Pelo que não terão herança no meio de seus irmãos; o Senhor é a sua herança” (cf. Dt 18, 2). O nosso trabalho, a razão do nosso viver é:

“Vere dignum et iustum est, aequum et salutare, nos tibi
semper et ubique gratias agere: Domine, sancte Pater,
omnipotens aeterne Deus” (PREFATIO DE NATIVITATE DOMINI)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sacerdotes Santos e Sábios

“SACERDOTES SANTOS E SÁBIOS”

“De meus filhos, não desejo doutores, no sentido puramente intelectual. Mais do que isto, desejo sacerdotes e religiosos santos e sábios. Somente assim teremos verdadeiros pastores, capazes de reconduzir de volta ao aprisco do Senhor as ovelhas desgarradas do seu rebanho. A palavra do Senhor diz que Ele mesmo cuidaria das suas ovelhas por causa dos pastores infiéis. Deixem-se guiar pelo Espírito Santo de Deus e sejam pastores segundo o Coração de Jesus. É isto que nosso Senhor deseja de nós e foi pensando nisto que Ele permitiu esta Obra”. (Const. 1998, 20).

Pe. Gilberto teve um itinerário formativo muito interessante e muito vasto, filosofia, teologia, letras, sendo que o seu trabalho sobre Guimarães Rosa foi até publicado. Nos anexos das Constituições ele alinhavou todo o curso de filosofia e teologia, e seu sonho sempre foi um Estudantado próprio, porque para o nosso fundador muitas vezes não se ensinava nas cátedras de teologia e filosofia aquilo que era o “Depositum Fidei”. Pela razão primeira de que nós salvistas professamos um quarto voto de “fidelidade ao Santo Padre o Papa, mesmo em seu magistério normal e comum” (Projeto de Constituição, n. 20). Para professar um voto de que devemos ser fieis a um “Depositum Fidei”. Por isso devemos sempre nos perguntar: como ser fiel se não o conhecemos em profundidade? E lembrando que hoje, pela primeira vez na História, é um dos maiores Teólogos do mundo está na Cátedra de Pedro.
Mas padre Gilberto frisa bem, não quer doutores, no sentido puramente intelectual, isto é, o saber, somente pelo saber. Um saber frio, uma ciência que incha no dizer de São Paulo (cf. 1 Cor 8, 1), que só serve para a pessoa aparecer, num orgulho sem fim. Na mesma passagem, o Apóstolo vai dizer que só o amor edifica. Bem como, na 1 Cor 13, 8, proclama que a ciência desaparecerá. Bem como todos os outros dons carismáticos, somente o amor permanecerá.
Mas então o que seria sacerdotes santos e sábios, qual seria o papel da formação intelectual, como quer a Igreja, conforme a “Pastores Dabo Vobis”.

“Moisés chamou a Bezalel, e a Aoliabe, e a todo homem hábil em cujo coração o Senhor tinha posto sabedoria, (em heb. RACAM, traduzido pelo grego por sofian) isto é, a todo homem cujo coração o impeliu a se chegar à obra para fazê-la”.[1]

Para fazer os utensílios da Tenda da Reunião, Moisés chama aqueles, cujo coração Deus colocou sabedoria, um coração sábio, se percebe que o conceito de sabedoria (racam) está ligado a fazer uma obra, a poder fazer aquilo que é vontade de Deus. Mas, não é um fazer qualquer, sabedoria é fazer a partir do coração, mas um coração cheio de sabedoria, um coração formado pelo Senhor, a partir desse coração aí sim se conseguirá fazer obras que agradem verdadeiramente ao Senhor, como tantas vezes já meditamos sobre o Louvor de Deus.
Mas o coração insensato é o coração entregue a si mesmo, um coração fechado ao Senhor, um coração vazio.
Nessa perspectiva o estudo filosófico que intenta fazer-nos conhecer o patrimônio do pensamento humano, e a ciência da fé, a Teologia, entram para formar o coração humano para fazer obras que louvem a Deus. Mas a sabedoria é uma conquista que depende do esforço humano, não se pode pretender a santidade de um coração entregue a si mesmo, um coração fechado para o conhecimento da Palavra de Deus, pois se Deus quis utilizar-se de escritores humanos, e o Espírito falou através deles, também hoje, a Palavra contida na Bíblia e na Tradição, interpretada pela Igreja e em Igreja, só pode ser entendida e transformar o coração humano se o mesmo ser humano, com a ajuda da graça de Deus deixar-se formar por Deus.
Deus faça que sejamos fieis ao Pe. Gilberto, e a seu exemplo amemos o que a Igreja nos ensina e não encarar Teologia e Filosofia somente como uma etapa estafante para chegar ao sacerdócio, não podemos ser tarefeiros, “faço porque me mandam”, mas conforme o Direito Canônico:

“Cân. 252 § 1. A formação teológica, sob a luz da fé e a orientação do magistério, seja dada de tal modo que os alunos conheçam toda a doutrina católica, fundamentada na Revelação divina, dela façam alimento de sua vida espiritual e possam anunciá-la e defendê-la devidamente no exercício do ministério”.
“Cân. 251 A formação filosófica, que deve estar baseada num patrimônio filosófico perenemente válido e também levar em conta a investigação filosófica no progresso do tempo, seja ministrada de tal modo que complete a formação humana dos alunos, lhes aguce a mente e os torne mais aptos para fazerem os estudos teológicos”.

Como o citado cân. diz o conhecimento da doutrina católica, fundamentada na Tradição, deve ser alimento da vida espiritual, nada mais do que falamos acima sobre sabedoria, deve alimentar o coração de tal modo que as decisões que daí brotam possam fazer o ser humano crescer em direção a Deus e isto é santidade.

E finalmente, num mundo em que a mentira grassa, em que a frase de Joseph Goebbels, principal agente da propaganda Nazista, Minta, e minta muito e sempre, que a mentira se transformará em realidade”, num Brasil em que governantes sorridentes, que sustentam o povo com esmolas e não privilegiam em nada o estudo, muito pelo contrário gabam-se de não estudar, diante da corrupção mentem e ensinam o povo a mentir, nós cristãos, principalmente sacerdotes devemos ter a frente a Palavra de Deus e pregá-la, oportuna e inoportunamente (cf. 2ª Tm 4, 2), ser verdadeiros profetas, e sempre e somente a verdade que liberte o nosso povo (Jo 8, 32). Do contrário, a nós que temos um fundador que expressou que quer sacerdotes santos, isto é que vivam a Palavra de Deus, e sábios, porque essa Palavra transforma o seu coração, vamos ter que arcar com a advertência de Oséias:

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos”. (Os 4, 6)

Por isso peçamos a Deus que em nosso coração seja impressa uma passagem bíblica que nosso Pai Fundador tanto apreciava:
 “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é mensageiro do Senhor dos Exércitos” (Ml 2, 7).


[1]Sociedade Bíblica do Brasil: Almeida Revista E Atualizada - Com Números De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2003; 2005, S. Êx 36:2

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O silêncio que louva...

“O silêncio que louva...”


O louvor de Deus é caracterizado pela graça que age no ser humano e esta graça se manifesta em obras de justiça, a vida louva a Deus. Mas como o silêncio pode ser louvor?
O Mistério de Deus, do Deus Trindade é caracterizado pela relação, relação que é comunhão, que realiza comunhão. A criação surge da palavra, da expressão de Deus, “E Deus disse....” (Gn 1 passim). Em si, a relação suprema é o silêncio, quando se esgotam toda a palavra e a entrega é expressa totalmente. Esse silêncio como cume do amor e da entrega é essencialmente louvor de Deus, é um silêncio cheio, porque nasce de uma relação amorosa.
Diferente de outros silêncio, que são impositivos, dominadores, silêncio da morte que é traduzido no salmo como ausência de relação (cf. Sl 94, 17). Silêncio de Adão que após o pecado se esconde de Deus, silêncio (Cf. Gn 3, 8); também de Caim que após a morte do irmão quer silenciar a voz de Deus dizendo não ser responsável por seu amor (Gn 4, 9). Esse silêncio é caracterizado pelo vazio, pois só o bem pode preencher o ser humano, quando o mal surge no coração humano, surge o silêncio da segunda morte, o silêncio da condenação que faz com que o ser humano vá tomando cada vez decisões de morte e o faz isolar-se de outros seres humano e por conseqüência de Deus. Um exemplo de silêncio vazio é o calar do homem que ao ser perguntado por não estar com a veste nupcial, ele se cala, fica em silêncio, pois recusou a graça de Deus (Mt 22, 12). Silêncio do orgulho humano que discute o ser maior (Mc 9, 34).
Diferente o silêncio que louva, porque brota da união com Deus, brota da resposta humana a Palavra de Deus, faz silencio para ouvir a Deus: “Escuta,  Israel...” (Dt 6, 4). Silêncio obediente de Jesus, que ao ser questionado na sua paixão, ele não responde, chega a hora de obedecer a Deus e não há o que justificar (Mt 26, 63). Silêncio humano diante da compaixão de Deus diante da miséria humana (Mc 3, 4).
O silêncio é o centro da Trindade e é o centro do coração humano de onde brota a decisão para o bem e para o mal (Mc 6, 15), é desse silêncio que brota o verdadeiro encontro do ser humano com Deus, é desse silêncio que brota o louvor de Deus.
O silêncio não é louvor:
- quando é apenas externo e imposto de fora;
- fruto do orgulho humano que não quer expor-se;
- vazio ou esvaziante, silêncio artificial e que não está cheio da Palavra de Deus fruto do Ouvir, da contemplação de Deus;
- silêncio fruto da vergonha, do desprezo, da omissão diante do bem que se deve fazer como do levita e do sacerdote diante do sofrimento do necessitado (cf. Lc 10, 31-32);
- silêncio pelo silêncio.
O silêncio que é como mãe que produz o louvor de Deus caracteriza-se:
- silêncio cheio do ouvir a Palavra de Deus ruminada no coração que ama a Deus, silêncio fruto da contemplação de Deus na Liturgia e na Criação;
- silêncio que provoca relação humana e divina, silêncio que é amor, fruto de dois amantes que se olham nos olhos, e que não é que não há palavras expressantes do amor, mas que o silêncio se torna a expressão máxima do amor, música, palavras, afeto, o cume é o silêncio do amor;
- silêncio que é fruto de uma pedagogia de Deus como para Elias que o faz sair do confronto com Jezabel, o leva para o deserto na experiência da morte, o alimenta, e no cume do Horeb, após os vários símbolos da demonstração do Deus que é vivo e atua na História, a comunicação plena é no silêncio da brisa, Deus não se mostra diretamente na brisa, mas da pedagogia dos vários símbolos, sinais, afetos, música, etc conduz o ser humano ao silêncio relacional do boca a boca ou dos olhos nos olhos, silêncio cheio do relacionamento com o Divino (1 Rs 19);
- silêncio que faz com que a pessoa ao se encontrar com Deus, que é amor, decida por atos de justiça, é desse silêncio que faz decidir que brota o louvor de Deus.
- silêncio da obediência em meio a dor, mesmo aí unido a paixão de Jesus, louva o Pai no Espírito, para o mundo totalmente inútil, mas é o silêncio supremo da união com Deus.
Maria é o exemplo da união com Deus no silêncio, ao anúncio do Anjo, ouve a Deus, o escuta, mas não é passiva, mas questiona e dialoga com o mensageiro de Deus (Lc 1,35). É desse silêncio que brota o sim, não um sim qualquer, mas o sim da Encarnação, um sim que se coloca em relação com Deus pois se coloca como serva do Senhor (Lc 1, 38). É desse silêncio ao ouvir Isabel pode proclamar as maravilhas de Deus (Lc 1, 46 ss). É no coração silêncio que guardava as coisas de Deus, dentro da dimensão do “dabar” a palavra e os fatos que Deus faz na História, um meditar que faz Maria unir-se verdadeiramente a Deus, expressado pelo verbo grego “symbalizein” (Lc 2, 29). O cume do silêncio é a cruz, é unir-se a Jesus na cruz, no silêncio, e nesse silêncio assumir a maternidade amorosa, silêncio não é meditação de sofrimento estéril, mas sofrimento frutificante, porque desse silêncio de acolhida da palavra do Crucificado assume uma nova relação com um outro filho, não há reposta de Maria aos pés da Cruz, porque sua presença silêncio já é o sim da acolhida no amor do filho, do discípulo amado, o silêncio diante da cruz é amor que faz acolher no amor o próximo (Jo 19, 25-27)
Que Deus nos dê um silêncio que seja louvor, que leva a amar, e não um silêncio estéril, frio, gelado, estéril orgulhoso, envergonhado. Que dentre todos os símbolos e sons do mundo, que também são criados por Deus, escutemos a harmonia do amor de Deus, e ao fazer essa experiência possamos ter encontro amoroso com Deus e com os irmãos, aí sim, entenderemos o silêncio cheio da Palavra de Deus, do amor, dos amantes, silêncio contemplativo, que surge naturalmente, fruto da pedagogia de Deus dentre os vários símbolos e barulhos, que surge do coração humano e é frutuoso.

A LIBERDADE E LOUVOR DE DEUS COMO FIM ÚLTIMO DO HOMEM

    INSTITUTO SUPERIOR DE FILOSOFIA E TEOLOGIA SÃO BOAVENTURA     DANIEL RIBEIRO DE ARAÚJO                   ...